Veracidade – Texto do Curador

VERACIDADE

Exposição coletiva do acervo de fotografias do MAM-SP, que também itinerou para o MunA, em Uberlândia – 2007
MAM-SP – 15/02 a 26/03 de 2006

Curadoria: Eder Chiodetto
Museografia: Marta Bogéa
Produção: Equipe MAM-SP

Em 1826, antes mesmo da invenção oficial da fotografia, em 1839, Nicéphore Niépce conseguiu obter aquela que é considerada a primeira fotografia da história ao registrar com sua câmera obscura a imagem dos telhados, muros e ruelas vistos a partir da janela de sua casa.

Nestes 180 anos, fixar a paisagem urbana em imagens estáticas tornou-se uma das mais fortes modalidades da fotografia. Transportar um recorte da paisagem no tempo e no espaço, com um grau de realismo nunca antes visto, serviu para aplacar a angústia do homem diante da dificuldade de deslocamento para lugares distantes e, consequentemente, de contato com outros povos, culturas, cidades e países. Assim, entre os séculos 19 e 20 tornou-se intensa a circulação de cartões postais com fotografias de paisagens urbanas e tipos humanos.

Nas primeiras décadas do século 20 esse olhar contemplativo e documental seria fortemente questionado pelas vanguardas estéticas européias. O avanço do capitalismo, a modernização e a industrialização das metrópoles tornaram a experiência urbana mais complexa, implicando em novas formas de ver e retratar as cidades.

A influencia dos surrealistas e concretistas se fez notar na fotografia brasileira, de forma mais clara, apenas no final da década de 40, sobretudo pela visão iconoclasta de Geraldo de Barros, que influenciou a geração de fotógrafos reunidos no Foto Cine Clube Bandeirante, como German Lorca e Thomas Farkas, entre outros. As coisas não são o que aparentam ser, mas sim um intricado mosaico de formas e linhas capaz de narrar de forma subjetiva e complexa a relação do homem moderno com a urbe. A idéia da fotografia como espelho do real começa a trincar definitivamente por essas paragens. Ver a cidade e fotografá-la se descola da idéia de veracidade do documento fotográfico. O sensorial entra em foco em detrimento da razão lógica.

A partir desse projeto, poderia se colocar a seguinte questão: se a fotografia não é o real, mas sim uma construção, um comentário a partir do real, a objetividade clássica, que se apóia no realismo, não seria uma forma mais ilusória, e talvez menos precisa, de aproximação do mundo que a fotografia experimental, que ultrapassa esses limites e escancara as fissuras da linguagem na qual a fotografia mescla ficções e realidades na mesma voltagem?

A fotografia contemporânea parece de fato ter radicalizado nesta direção, inclusive irrigando parte da produção documental, diluindo um pouco as fronteiras entre ambas. A experimentação, localizada e marginalizada, de Geraldo de Barros e amigos, com poucas exceções, seria retomada mais fortemente apenas na década de 90.

A representação das cidades, nesse contexto, passou a ser menos a visada sobre referências geográficas que a apreensão do local de embate do homem na busca de sua identidade. Espaço da busca da realização dos desejos, da projeção dos medos, da aceleração dos vetores, dos olhares filtrados por estruturas de todo tipo e, finalmente, da diluição do ser diante da monumentalidade da arquitetura que, ao mesmo tempo, acolhe e aprisiona.

Veracidade pretende investigar, a partir do acervo de fotografias do MAM, com obras realizadas entre a década de 40 e as doações e aquisições feitas até 2006, como se deu a evolução do olhar sobre o espaço urbano, reflexo direto das inquietações do homem contemporâneo. A partir de visores, como preconizou Niépce, o homem pode se reinventar e reinventar o espaço que habita. Ver a cidade, ver-se, sabendo que a veracidade não está na falsa noção de realismo das câmeras fotográficas, mas na liberdade do ato criativo.

Eder Chiodetto

 

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