Thomaz Farkas – Texto Curador

Thomaz Farkas – DF

Mostra individual de Thomaz Farkas
MIS – Museu da Imagem e do Som – 06/10 a 14/10 de 2015
São Paulo

Curadoria: Eder Chiodetto
Produção: Ipsis
Realização: MIS – SP

Subversivo e elegante

Thomaz Farkas criou um bordão que repetia sempre em eventos e palestras de fotografia, sentado nas primeiras filas como gostava de fazer. Na primeira oportunidade ele exclamava, para júbilo da plateia, Viva a fotografia! Ao que era seguido por um sonoro coro dos presentes: Vivaaaaaa!

Viva! É mesmo viva e assim permanecerá a sua fotografia através dos tempos. Ao mergulhar em seu acervo no IMS_ para selecionar as imagens deste livro, tivemos a rara oportunidade de observar como a sua obra se firmou na ambivalência entre o poético e o político.

A partir de seu ingresso no Foto Cine Clube Bandeirante, em 1942, a fotografia de Farkas conheceu a vertigem da busca por uma autonomia da linguagem. Com apuro estético, criou composições que enfatizam as relações geométricas entre os planos e a superposição da sombra sobre os volumes da metrópole, por exemplo. Em um segundo momento, como veremos na seleção a seguir, sua obra ganhou contornos mais humanistas. O enfoque recaiu então sobre pessoas menos afortunadas, excluídas do projeto desenvolvimentista capitaneado por Juscelino Kubitschek e que culminou na construção de Brasília.

Nascido em Budapeste, na Hungria, em 17 de setembro de 1924, o garoto Thomaz mudou-se para São Paulo com a família em 1930, cidade em que seu pai Desidério abrira a primeira loja Fotóptica. A fotografia já era o ramo de atividade dos Farkas antes da emigração. Thomaz começou a fotografar aos oito anos de idade e, como sempre dizia, tornou-se um amador apaixonado pelo resto da vida, posto que nunca fotografou profissionalmente. A partir dos anos 1960, sua prioridade passou a ser a produção e direção de documentários cinematográficos.

Este livro traz uma inédita seleção de seus trabalhos, que flagram a cidade de Brasília em dois momentos: a construção e inauguração, entre 1958 e 1960, e também fotografias realizadas por Farkas 40 anos depois, em 2000.

A iniciativa de fotografar a construção de Brasília nasceu de uma sugestão do arquiteto Jorge Wilheim e do sociólogo Pedro Paulo Poppovic, amigos de Farkas e proponentes do concurso que resultou na edificação de Brasília. Ao contrário de fotógrafos como o francês Marcel Gautherot e o alemão Peter Scheier, contratados para registrar a construção, Thomaz Farkas realizou as fotografias por interesse pessoal, financiando-as também por conta própria.

Já a nova série de fotografias, realizada em 2000, resulta de um convite feito pelo jornal Correio Braziliense, que publicaria um caderno especial comemorativo aos 40 anos da inauguração da capital federal. A ideia dos editores era que Farkas voltasse aos mesmos lugares, após quatro décadas, para fazer imagens comparativas.

Se à época da construção e inauguração de Brasília o interesse de Farkas já estava nitidamente mais direcionado ao Núcleo Bandeirante, aos trabalhadores apelidados de “candangos”, às suas moradias improvisadas e muito simples e ao comércio popular, ao invés da monumentalidade da arquitetura de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, o mesmo ocorreu no seu retorno em 2000. Em entrevista ao caderno especial do Correio Braziliense, Farkas diz em tom crítico: “a cidade mudou nas aparências. Mas, para o povo, a vida continua praticamente a mesma.” O jornalista TT Catalão analisou desta forma as imagens realizadas pelo fotógrafo, em texto publicado na mesma edição de 20 de abril de 2000:

“Farkas revisitou o mesmo conflito tenso que oprime as pessoas simples, mas não castra o lirismo, o repouso, a sensação de plenitude mesmo na pobreza. Mudaram governos, ditaduras, aparatos repressivos, planos econômicos, moedas, discursos, marketing, embalagens; mas há uma coerência íntegra em Farkas que não o provoca ao monumental ou ao supérfluo do que passa. Ele quer a alma, a medula do modelo, a raiz. Ele não se assusta com movimentos pois sabe que é o eixo fixo, centrado, calmo, generoso que permite a roda girar”.

Apesar do olhar crítico, uma das emblemáticas fotografias que ajudaram a formatar a ideia de Brasília como o maior e mais arrojado projeto arquitetônico modernista do mundo, é justamente de Thomaz Farkas (p. xx). Nela, o fotógrafo lança mão de seu repertório e preceitos modernistas para gerar uma imagem com acentuado contraste entre preto e branco, com a eliminação de parte dos tons cinzas e a utilização de um enquadramento clássico, que engloba o prédio do Congresso Nacional, seus arredores e o imenso céu aberto do Planalto Central.

O contraste carregado faz com que a parede do prédio tenha tonalidade semelhante à do céu. A luz branca estourada parece roubar a ilusão de tridimensionalidade com a qual a fotografia costuma representar a paisagem. Em virtude dessa estratégia, nossa percepção visual fica embotada: o monólito de linhas retas que configura o prédio surge como se fosse ainda um desenho na prancheta do arquiteto e não um volume no espaço em seu dia de glória.

Ao retornar em 2000, Farkas parece não se preocupar em repetir essa imagem-ícone do Congresso. No lugar de uma tomada de caráter totalizante, como um cartão postal, opta por fotografar (p. xx e capa) uma canhestra gambiarra, colocada em uma das extremidades do prédio na provável tentativa de evitar invasões de manifestantes. Essa gambiarra torna-se assim uma metáfora potente das mal aparadas relações de força entre um projeto de cidade idealizada e a vida real que a espreita, que reconfigura o espaço urbano a partir das incongruências de um país de grandes desigualdades sociais.

A pesquisadora Juliana de Arruda Sampaio, em seu texto de qualificação para o mestrado intitulado “Construção: imagens, discursos e narrativas na Brasília de Thomaz Farkas”, apresentado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, cita o teórico Georges Didi-Huberman para falar da “subversão humanista” de autores como Farkas:

“Apoio-me, sobretudo, numa discussão proposta por Georges Didi-Huberman, na qual o autor reivindica a subversão humanista do fotógrafo em redimensionar o enquadramento da câmera, trazendo para dentro deste aqueles que há muito foram colocados repetidamente para fora do campo visual, e consequentemente para fora do campo da representação: os sem-nome, o homem-ordinário, o homem do comum. Segundo o autor, o fotógrafo e o aparelho fotográfico são capazes de colocar em crise o próprio aparelho institucional, apenas jogando com o enquadramento.”

Ao jogar ideológica e apaixonadamente com o enquadramento, Farkas pensou a fotografia dentro do cânone da subversão, do não conformismo com os discursos oficiais e negligentes. Porém, assim como na imagem da gambiarra no Congresso, a crítica surge revestida pelo humor e elegância que sempre marcaram a sua trajetória. Diante dos camelôs que se ajeitam como podem entre estruturas de concreto armado, Thomaz Farkas escolhe celebrar a pulsão de vida que revigora o espaço de convívio em vez de destilar discursos inflamados. A fotografia silenciosa e ao mesmo tempo vigorosa é o seu libelo. Fotografia subversiva e elegante. Viva a fotografia!

Eder Chiodetto

 

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