Texto do curador – Emídio Contente

Chapéu Virado

Mostra individual de Emídio Contente
Casa das Artes – 24/11/17
Belém – PA

Curadoria: Eder Chiodetto

Chapéu Virado

Num chapéu virado, que outrora protegia uma cabeça, na primeira lufada à beira mar expõe sua oca imensidão. No oco de um chapéu virado cabe o infinito das coisas de métrica imprecisa.

Cabe um Lugar, seu Resplendor, Dois Corações, o Transe e a Traição. Cabe mais. Cabe símbolos que surgem no tempo vácuo que se espreita entre palavras visuais e imagens verbais.

Cabe a dança dos significados intangíveis que o artista apura ao deparar-se com três ovos que repousam no chão. Entre a potência da vida que os legitima e a eminência da morte que a fome anuncia, existe uma forma, um desenho no espaço, uma pulsão silenciosa em hiato imperativo: – Vá ou fique, nunca volte.

O infinito das coisas de métrica imprecisa alude, no oco do chapéu virado, ao encontro com o vazio pleno das coisas que existem de forma imaterial. Chapéu Virado é ilha, desejo intenso cortado por vazios, sinaliza o artista após nadar até a terceira margem do rio de João Guimarães Rosa para encontrar o poeta Max Martins tecendo letras com areia a Caminho de Marahu.

Um chapéu virado, ao mesmo tempo em que perde sua função utilitária no mundo dos homens que caminham sob o sol, torna-se um ready-made, como nos ensinou Marcel Duchamp. Um objeto quando deslocado de seu devir social, esvazia-se num primeiro instante de sentido para em seguida reemergir como possibilidade poética. Um chapéu virado é um manifesto niilista. É necessário preenchê-lo de sentidos.

Emídio Contente promove a rajada de vento que faz o chapéu virar. Nas elipses que o chapéu desenha ao léo, imagens e palavras em ritmo de sonhos, desejos e desterro surgem e desaparecem num turbilhão de memórias e afetos sublimados. Segredados no oco sem vazios do nosso inconsciente, que se revela apenas parcialmente em rimas imperfeitas como o binômio Nunca Volte e Fique, entrevemos a métrica imprecisa daquilo que contém o vazio do chapéu virado. O que nos move, o que nos comove.

Eder Chiodetto

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