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Desejo e Reparação – Texto do Curador

Desejo e Reparação

Mostra individual de Rogério Ghomes
Museu de Arte de Londrina – 15/08 a 03/09 de 2011
Paraná

Curadoria: Eder Chiodetto

 

Onde o olho objetivante da câmera detecta e registra o signo do vazio e do silêncio, a percepção labiríntica do artista sublinha uma convulsão de sensações e murmúrios incessantes. A disjunção entre o que o olhar metafórico e subjetivo do artista apreende na paisagem do seu entorno pelo mundo e aquilo que a câmera devolve mecanicamente quando acionada, é uma das mais intrigantes operações contidas na mostra “Desejo e Reparação”, de Rogério Ghomes.

É justamente por meio dessa estratégia que a poética do artista visa desacomodar certas cenas cotidianas, aquelas para as quais paradoxalmente já estamos cegos de tanto vê-las. Nesse processo de ressignificação, Ghomes nos leva a perceber o espanto onde até então repousava uma aparente calmaria, a vertigem onde, outrora, os pés fincados à terra se davam por seguros.

Na foto-instalação “Donde Estoy, Estoy a te Esperar” a câmera fotográfica se converte numa excêntrica e quase angustiante “máquina de expectar”, como sinaliza o historiador brasileiro Maurício Lissovsky1, contra a qual parece não haver ansiolítico capaz de apaziguá-la. Ao utilizar o recurso da repetição da cena de bancos públicos desocupados mantendo a reincidência da atmosfera, numa citação indireta ao legado do casal alemão Hilla e Bernd Becher e a Nova Objetividade, Ghomes cria um campo aparentemente afável, posto que fotografias de bancos em praças públicas está intrinsicamente ligado, na nossa memória e na fotografia amadora, ao romantismo prosaico, ao passeio de mãos dadas dos amantes numa tarde de domingo em volta ao coreto da praça central de uma cidade qualquer.

É justamente na espera desse prosaico, da sua porção de roteiro previamente definido e confirmado em tantas canções de amor, filmes, livros, novelas que a máquina de expectar de Ghomes parece ter emperrado. Afinal, não estava previamente acordado que a cena a seguir mostraria um feliz encontro? Que esses bancos finalmente acolheriam as mais intensas manifestações de amor? O “esperar” anunciado no título dessa série, dessa forma, finda por reconfigurar o “donde estoy”. Só podemos avançar no amálgama de emoções depreendidos dessa série de bancos flagrados solitários pelo mundo, se tentarmos decifrar onde afinal está a pessoa que anuncia que “Donde estoy, estoy a te esperar”. Certamente não é diante desses bancos, posto que os mesmos sinalizam mais um sintoma que um lugar definido no espaço-tempo.

A observação atenta aos outros trabalhos contidos em “Desejo e Reparação”, pode nos oferecer novas chaves para entender onde está esse observador do mundo, que assumidamente surge nesse enredo como um possível alter ego do próprio artista.
Em “Voltando para Casa” (2006), mais uma cena corriqueira nos desafia a perceber sua dimensão simbólica. Dessa vez nosso observador do mundo flagra os desvãos de suas sensações nas asas dos aviões que planam entre nuvens e que o artifício da fotografia sorrateiramente as paralisa, sequestrando a velocidade da ação. As imagens ainda sofrerão outras intervenções para se ajustarem a representação idealizada pelo artista.
As cenas aéreas surgem seccionadas em diversos fragmentos, sublinhando e metaforizando um certo estado de coisas no qual parece faltar sempre algo que possibilite a conexão entre as partes. As cores, alteradas pelo filtro contido nas janelas das aeronaves, criam um deslocamento ainda maior do que poderia ser um registro mimético de uma cena real, visível a olho nu.

Por meio dessas estratégias poéticas, novamente Ghomes desloca o aparentemente trivial do lugar cômodo a que o relegamos no dia a dia, potencializando essas imagens de tal forma que elas passam a engendrar uma narrativa tensa-intensa sobre a expectativa. É a “máquina de expectar” que novamente assalta os sentidos, agora sob a ar pressurizado da cabine que torna ainda mais ofegante a respiração…

Na mostra realizada no Museu de Arte de Londrina, Ghomes sobrepôs mais uma conversão no material e no suporte de “Voltando para Casa”. Ampliadas em vinil transparente e dispostas simetricamente em placas vidros numa sala também toda envidraçada e sem paredes, a série ganhou novas e inesperadas conotações, criando um curioso paradoxo ao instalar esse improvável hangar de aeroporto justamente na antiga sede da rodoviária da cidade, um ícone da arquitetura modernista brasileira, projetada por João Batista Villanova Artigas (1915-1985).

Em “Incrível como um Distúrbio Afeta a Credibilidade” (2004), também presente em “Desejo e Reparação”, Ghomes parece zombar das próprias operações que ele cria com o intuito de “magicizar” suas fotografias, imanto-as com camadas de significados díspares a partir de tais intervenções ou “distúrbios”. Se a credibilidade é afetada, isso se deve ao esforço do artista de colocar em primeiro plano o terreno do interdito, do não dito, e não tão apenas a aparência das coisas no mundo. Esse modus operandi somado à expectação criada nas outras duas séries já citadas, coloca a obra de Ghomes dentro do eixo sensório-motor, tal qual preconizado por Henri Bergson2 (1859-1941), no qual o artista vê e afirma “a cada instante o útil” e rejeita o “momentaneamente supérfluo”.
Como escreve Lissovsky: “para os fotógrafos que trabalham no eixo sensório-motor, operando sobre ele o “intervalo” da espera, o pré-fotográfico é o potencialmente fotográfico: potencia de um mostrar-se que a fotografia atualiza”3.

Talvez essa seja uma chave para entender boa parte da produção de Ghomes e sobretudo as motivações de “Desejo e Reparação”. O artista parece vagar pelo mundo sob o peso, a ansiedade e o desejo que se depreendem dos labirintos de afetividades, amores reprimidos e paixões avassaladoras que nos assaltam na soma dos dias de uma vida. Sua sensibilidade extremada, porém, o leva a não se deixar levar pela aparência do banal que culturalmente impomos à paisagem. Diante do que normalmente passaria despercebido, o artista retira a película espessa da insignificância para nos fazer ver a beleza até então enclausurada e a potência das coisas “triviais” em seu estado bruto. Eis então que seus labirintos subjetivos encontram a forma ideal para serem representados. Essas imagens, portanto, são gestadas no tempo sem tempo de suas reflexões interiores, ou seja, no pré-fotográfico como sinaliza Lissovsky.

Para finalizar, não se pode ignorar na obra de Ghomes a sua lida com as palavras que nomeiam suas séries. Se a expectação e o pré-fotográfico são dois dos seus players fundamentais como vimos até aqui, falta reunir a essa discussão a função transformadora que a palavra tem sobre as imagens.

Em “Desejo e Reparação” a instalação “Dobras” que recebia os visitantes, como frases como “Nunca me lembro de esquecê-lo” ou “Preciso acreditar que ao abrir os olhos o mundo continua aqui”, possuem forma e diagramação também sujeitas aos distúrbios e intervenções, tais como as fotografias. Palavras-imagens. Ao caminhar por esse labirinto de frases que alardeiam um desejo e pedem a sua reparação em justa medida, o visitante era direcionado, sem saber, para os muitos bancos solitários de “Donde estoy…”.
No todo, a montagem de “Desejo e Reparação” teve o mérito de buscar pontos de conexões entre obras e, num segundo momento, ajustar a sintonia possível entre o conjunto de obras e o espaço do museu. Reunidos e dispostos a partir de uma intrincada rede de equilíbrios e atritos, essas obras criaram um forte campo simbólico no qual alguns enigmas foram capazes de estimular e seduzir os visitantes para algum nível de abstração da realidade circundante, uma reflexão consciente ou não.

A obra de arte, dessa forma, cumpre uma de suas mais genuínas funções, que é a de ativar a percepção do outro mantendo-se como motor em permanente trabalho. Obra em obras. Ou como sugere Heidegger: a verdade da obra de arte “determina-se a partir do que na obra está em obra”4. “Donde estoy”, afinal? “Estoy” em toda arte, “estoy” em toda parte. “Estoy” em ti.

Eder Chiodetto

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