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Rogério Medeiros Ritmo e Gesto – 2013 – Texto do Curador

Ritmo e Gesto

Exposição individual de Rogério Medeiros
MACRS – 13/04 a 19/05 de 2013
Rio Grande do Sul

Curadoria: Eder Chiodetto
Produção: MACRS

 

O ritmo da história

A fotografia, tão logo foi inventada, em 1839, passou a travar um interminável embate com a pintura, que até então era um dos principais meios de reportar os acontecimentos da humanidade.

A partir deste contexto histórico, fotografia e pintura seguiriam, dentro da história da arte, criando pontos de aproximação e distanciamento. Entre atritos e equivalências, hoje percebemos que uma se nutre da outra para se reinventarem como potentes formas de representação visual do homem a qualquer tempo.

O gesto do artista

A vantagem de ser contemporâneo está fincada na possibilidade de poder ver a história da humanidade e, neste caso, da arte, em perspectiva. O atual panorama da arte contemporânea sugere menos crenças cegas a modismos e maior interação entre meios. Artistas de toda ordem se esmeram em tornar cada vez mais tênues as fronteiras entre técnicas, suportes e linguagens. O hibridismo, ou seja, a possibilidade de criar pontos de contatos vindos do cruzamento entre várias esferas da arte se tornou um específico e renovado espaço poético.

Em Ritmo e Gesto, Rogério Medeiros tensiona ao máximo a relação entre o pictórico e o fotográfico, articulando prática poética na qual os conceitos se opõem, se contaminam e se mesclam com envergadura e vigor para criar uma obra limítrofe entre pintura, fotografia e gravura.

Passado cerca de um século do auge do Pictorialismo, Medeiros retoma certas discussões da época para atualizá-las em face do estado atual da arte e da possibilidade de interferir na nossa percepção visual contemporânea de forma pontual. Diferente de outrora, porém, em Ritmo e Gesto a fotografia não revisita as especificidades da pintura para se legitimar como expressão artística, questão essa já superada há muito, mas sim para criar uma tensão, um hiato, algo como um inesperado flanco descoberto no intervalo entre as duas formas de expressão.

Nada é o que parece ser, ou inversamente, tudo pode vir a ser o que assim lhe parecer, nos diz estas imagens orientadas no sentido de perceberem o abstrato no concreto, o onírico no detalhe aparentemente insignificante. Plataformas para o imaginário onde o olho nu jamais notaria, mas que o olhar fotográfico e a cultura visual deste artista que investiga em detalhes seus pintores de cabeceira, detecta e traz à tona.

O ponto de partida desta aventura empreendida pelo artista está na potência que o referente possui para lhe servir como ferramenta para uma representação cuja forma final não se dá nunca a partir de uma presunção idealizada, mas sim pela incessante busca de respostas a problemas que ele próprio se coloca. Soma-e a isso tudo, a presença constante do acaso, que tem a função de perturbar e interrogar – ao artista e ao signo – durante todo o trajeto.

Talvez esse ponto seja um dos mais fortes em Ritmo e Gesto, no que toca a proximidade deste fazer fotográfico com o processo de construção de imagens por um pintor. Se na fotografia tradicional o resultado é em grande parte previsível, na pintura ele irá se construindo a medida que as pinceladas preenchem o quadro, sendo que apenas um gesto dissonante na condução do pincel poderá determinar um caminho totalmente novo e diverso daquele previamente imaginado pelo pintor.

Como é da natureza do acaso ser indomável, ao artista cabe saber como utilizá-lo em prol de sua obra. Um artista afinal, deve se guiar mais pela dúvida que pelos caminhos da razão. A maturidade, quando bem encaminhada, faz o artista perceber que o auto-desafio e a desconfiança do excesso de saber deve permanentemente ser vigiado, ironizado e muitas vezes deixado de lado em favor da intuição, do caminho menos óbvio, do circuito errático que pode trazer surpresas, despertar certas manifestações do inconsciente e abrir novas fronteiras no seu pensar e fazer artístico.

Medeiros diante de uma cena da natureza ou de algum detalhe qualquer que o capture, precisa provocar em seu imaginário uma diluição do referente. O que só é possível a partir do esvaziamento do olho-razão e da instauração de um olho-abstrato. Ou seja, o referente é abstraído a partir da diluição do próprio artista diante daquilo que ele irá transformar num outro.

A representação final, portanto, é um amálgama de sensações onde os estados de humor do artista – e agora também dos leitores que possuem este livro em mãos -, passam a ter como parâmetros de tradução a forma, a luz e a cor. Combinadas em distintas variações, esses elementos trazem cifrados em si intensidades, afetividades, temores, desejos e até uma certa violência incontida percebida no encontro inesperado de texturas que ora se degladiam, ora se apaziguam no quadro.

Após um tempo experimentando esses exercícios diante da vegetação e das águas que neste livro pontuam seu início, Medeiros foi aos poucos percebendo que na economia de gestos e formas poderia chegar a ritmos diferenciados em suas imagens. Algumas das fotografias deste livro surgiram a partir desse olhar, que no percurso de uma pesquisa, segue se revigorando até o encontro de sua essência, quando então pode atingir a sutileza e a precisão de um hai-kai.

Neste universo de informações cifradas, de referentes embriagados e sínteses formais, por vezes o que parece ser uma grandiosa vista aérea de uma bacia hidrográfica, ou mesmo a textura da face da lua, pode, na verdade, ter sido captado originalmente a partir de um detalhe ordinário encontrado dentro da casa do artista, no vapor do banho, na transparência que a luz enviesada impõe a um objeto cotidiano.

A fotografia neste estado de suspensão das coisas ativa o seu dom de iludir e de transfigurar o signo para demonstrar, a golpes de luz, que a experiência do olhar pode ser infinitamente mais ousada e estimulante do que o mundo das aparências normalmente nos faz perceber. Medeiros nos conduz, em Ritmo e Gesto, a uma aventura sensorial pautada por certo transbordamento da percepção visual tramada de forma meticulosa nesta fotografia híbrida de técnicas, cultura e subjetividade.

Eder Chiodetto

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