Reforma – Marcelo Di Benedetto – Texto do Curador

[Re]forma

Mostra individual de Marcelo Di Benedetto
Galeria Nicoli – 08/06 a 22/07 de 2016
São Paulo

Curadoria: Eder Chiodetto e Giovanni Pirelli

Os afetos, inevitavelmente, geram desejos de imortalidade. Vinícius de Moraes, o poetinha, no entanto, nos adverte sobre o amor, em seu Soneto de Fidelidade:

Que não seja imortal, posto que é chama,

Mas que seja infinito enquanto dure.

[re]forma, primeira individual de Marcelo di Benedetto, surge justamente a partir de uma reflexão sobre afeto e duração. Logo, assentam-se nas camadas de cimento, que se agarram ao suporte de madeira por meio de tramas de ferro, questões existenciais que perpassam os temores e a poética que embalam as espirais dos nossos ciclos de vida.

Inventada há quase 180 anos, a fotografia rapidamente veio suprir a lacuna, existente até então, de nos vermos representados na nossa história pessoal. Os álbuns de família se tornaram a forma mais imediata de legitimar a nossa existência constelada com gerações de familiares, amigos e lugares ícones que marcam nossa trajetória. Se a passagem do tempo é implacável, ao menos temos nas fotografias uma forma de tornar mais perene a nossa coleção de afetos.

Mas essa noção de perenidade que a fotografia nos dá não seria apenas mais uma ilusão de eternidade? É comum vermos em mercados de pulgas álbuns de família inteiros a venda. Em algum momento, para alguma geração, as fotografias de seus antepassados perdem seu lastro simbólico, deixam de fazer sentido. Assim como nós, as fotografias também passam. Seja pela soma dos tempos, seja porque também é composta por matéria orgânica que tende a se degradar em algum momento.

Consciente desse processo, Marcelo busca de alguma forma ludibriar, poeticamente, o fluxo inexorável do tempo. A partir de fotografias de família, várias delas de sua infância, o artista cria um sistema que, por meio da transmutação da matéria, visa perpetuar suas memórias afetivas.

Porém, ao agenciar entre a fotografia e o cimento possibilidades poéticas que vislumbrem o eterno – mesmo sabendo-o impossível – Marcelo não se limita a fazê-lo com o intuito de preservar apenas as suas próprias lembranças.

A transferência da fotografia para as placas de concreto ocorrem por meio do desenho formado pelo contorno das pessoas e da paisagem contidas na imagem. A moldagem concretada surge, então, sem as características pessoais dos personagens e seus cenários. Logo, a coleção de afetos que a obra de Marcelo intenciona preservar para além dos registros fotográficos, é coletiva, universal. Essas placas de cimento guardam, em sua estrutura brutalista, a delicadeza das relações que transcendem o tempo lógico com que tolamente tentamos desvendar os mistérios da existência.

Eder Chiodetto

Captura de Tela 2016-07-14 às 15.26.06

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