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Portfólio – Alexandre Sequeira – Texto do curador

Portfólio – Alexandre Sequeira

Exposição individual do artista Alexandre Sequeira
Itaú Cultural – 21/10 a 25/11/2007
São Paulo

Curadoria : Eder Chiodetto
Produção : Itaú Cultural

 

As coisas do mundo só existem por meio de linguagens e narrativas, portanto, toda a comunicação que produzimos é uma interpretação do mundo, não o mundo em si, posto que este é impalpável. Logo, tudo o que é dito, escrito, pintado ou fotografado simboliza não só a presunção da existência das coisas, mas também a imanência do artista nos seus temas.

Daí que representar o outro implica inevitavelmente representar a si também. Estudos ligados à antropologia visual e às artes em geral se debatem sobre como traduzir o outro de forma mais enfática, sem que o gosto pessoal e os maneirismos estilísticos do artista sobressaiam e resultem no inócuo exercício de ver o outro como mero espelho.

Se representar sem que a personalidade do artista fique atrelada à obra final é uma impossibilidade, o caminho mais profícuo reside na poética da obra de arte que resulta de uma relação, registro repleto de porosidades que denota a dissolução de um ser no outro.  É quando o retrato, tema dos mais recorrentes na história da arte, se potencializa como um acesso à transcendência.

Ao acompanhar o cotidiano do vilarejo de Nazaré do Mocajuba, Iocalizado no município de Curuçá, a 150 quilômetros de Belém, no Pará, por dez anos, Alexandre Sequeira conseguiu, graças a essa imersão e à sensibilidade que lhe é própria, construir esta série de retratos impressos em toalhas de mesa, lençóis, cortinas, redes e mosquiteiros.

Mais que atestar a presença das pessoas num determinado lugar, as peças reapresentam, entre estampas, manchas acumuladas e a serigrafia sobreposta, delicadas tramas que falam de identidade e memória, esta última indelevelmente associada ao tempo. Como relata o próprio artista “As casas simples tinham seus ambientes separados por desgastados tecidos que acolhiam intimidades. Do outro lado, vultos, reflexos, imagens imprecisas. Desses elementos emanava uma carga de história. Era como se sussurrassem em meus ouvidos confidências de seus moradores. Percebi ali elementos que traziam em sua materialidade o dado que faltava para falar de uma relação: o tempo”.

As coisas do mundo, enfim, só existem quando distraidamente as percebemos.

Eder Chiodetto

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