Percursos – Alair Gomes

Alair Gomes: Percursos

Mostra individual de Alair Gomes
Caixa Cultural São Paulo – 25/07 a 04/10 de 2015
São Paulo

Curadoria: Eder Chiodetto

Produção: Frida Projetos Culturais

Design gráfico: Milena Galli

Museografia: Marcus Vinicius Santos

Compor fotografias como quem escreve partituras musicais. Fazer dos seus desejos mais íntimos um manifesto artístico libertário. Espiar pela janela com olhos capazes de petrificar o corpo desejado. Acreditar que na pulsão erótica residem também a beleza e a transcendência do ser.

O corpo masculino jovem e belo pautou toda a obra fotográfica do artista carioca Alair Gomes [1921-1992], realizada ao longo de 20 anos. O olhar do artista, de viés homoerótico, tornou-se complexo e original ao longo de sua produção. Estudioso da história da arte, da física e da filosofia, suas pesquisas o levaram a encontrar caminhos fecundos para inserir a fotografia dentro do campo da arte contemporânea, com destaque para as sequencias de imagens que ele elaborou inspirado em sinfonias e sonatinas e em altares religiosos, como nas composições em trípticos.

Alair Gomes: Percursos foi estruturada visando a inserir o espectador no universo estético e conceitual do artista, mostrando-o também como um ser político que produziu sua obra entre dois marcos que revolucionaram o comportamento da humanidade: suas séries têm início no final dos anos 1960, no contexto libertário da contracultura, e terminam com seu assassinato, em 1992, no momento em que o surgimento da Aids gerou um novo cerceamento à liberação sexual e ao estilo de vida gay.

Duas séries inéditas, exibidas aqui pela primeira vez, ajudam a criar esse pano de fundo que contextualiza o tempo e o ambiente que permearam a obra de Gomes: Praça da República, na qual o fotógrafo registra personagens da feira hippie em São Paulo, em 1969, e fragmentos da série Esportes, em que Gomes extrai, das atividades esportivas praticadas por rapazes, uma iconografia que ressalta a beleza, a força física e a sensualidade que se acentuariam nas séries posteriores.

Compõem também a exposição The Course of The Sun e suas mais conhecidas séries – Sonatinas, four feet e Beach Triptych -, além de imagens realizadas em viagens pela Europa. Nas cidades européias, Gomes fotografou as estátuas greco-romanas que se tornariam referência para suas fotografias de nus realizadas em seu apartamento e que integram a série Symphony of the Erotic Icons, composta por 1.767 fotografias e até hoje nunca mostrada na íntegra. Exibimos pela primeira vez um recorte de seu acervo que sobrepõe parte dessas duas séries, criando um rico paralelismo entre inspiração e representação autoral.

Sonatinas, Four Feet [Rio de Janeiro, 1975-1980]

“Meus grandes casos de amor começaram com uma visão”, declarou Alair Gomes. Nesta série, o artista alude à composição musical para criar sequências com imagens de uma ação que ocorre num tempo-espaço bem definido, em geral com dois rapazes se exercitando na praia. Essa narrativa fraturada nos dá a percepção de uma coreografia ritmada e sensual. Por meio dessa estratégia, Alair extrai da cena um erotismo muitas vezes imperceptível para quem a vê no contínuo do tempo. O espaço vago entre um fragmento e outro é o combustível da imaginação. As imagens dessa série foram captadas por Alair com uma teleobjetiva, da janela do seu apartamento, no sexto andar, em Ipanema.

Beach Tripytch [Rio de Janeiro, anos 1980]

Trata-se de uma série em que Alair reúne três imagens não necessariamente sequenciais para criar um outro tipo de movimento. Segundo ele próprio, “ao reunir três fotos, fazendo uma espécie de composição de altar, cheguei no que os ingleses chamam de altar piece. Na Renascença italiana os trípticos de altar eram comuns. O tríptico tinha conotação religiosa; frequentemente no tríptico havia uma figura central e duas figuras laterais, secundárias, formando um todo. Eram três imagens diferentes que completavam uma composição que, em geral, chamava à devoção. E devoção era absolutamente central no meu caso, tanto que resolvi denominar esses fragmentos com o nome latino de “Adoremus”, cometendo uma espécie de blasfêmia proposital não no mau sentido, mas simplesmente fazendo uso de um nome tipicamente religioso em uma composição erótica”.

The Course of the Sun  [Rio de Janeiro, 1967-1974]

Esta série integra o grupo de obras denominadas Finestra, realizadas por Alair a partir da janela de seu apartamento em Ipanema. O movimento dos rapazes indo e vindo da praia em dias de sol proporciona uma duplicidade de corpo e sombra, como um espelhamento distorcido. Por vezes as sombras assumem a mesma monumentalidade da estatuária greco-romana que ele fotografou na Europa. Nota-se, no conjunto formado por essas imagens, uma nova citação formal às partituras musicais. Corpos-claves que dançam ritmados pelo sol.

Symphony of Erotic Icons [Rio de Janeiro, 1966-1978]

Essa foi a primeira grande composição sequencial realizada por Alair, entre 1966 e 1978. Considerada sua obra-prima, é dedicada totalmente ao nu masculino e compreende um conjunto de 1.767 fotografias. A série é estruturada em cinco movimentos: Allegro, Andatino, Andante, Adagio e Finale. Para Alair, a construção desse universo fotográfico almejava “transcender a sua personalidade”, criando um estado “proto-religioso”. Essa série nunca foi mostrada integralmente, devido a questões jurídicas relativas ao direito de imagem dos modelos, nunca formalizada pelo fotógrafo. Nessa sala fragmentos de Symphony of Erotic Icons  foram intercalados com fotografias de estátuas greco-romanas fotografadas por Alair em duas viagens pela Europa, em 1969 e 1983. Essa estrutura conjunta visou a ressaltar a relação que Alair criou entre os nus dos garotos que ele abordava na praia, e fotografava em seu apartamento, com a tradição da representação do corpo masculino como ícone de força e virilidade na estética clássica. “As Sinfonias Eróticas se afastam inteiramente do gênero das Sonatinas. Raríssimamente me consenti, ao longo desse seriação, tentar sugerir alguma coisa com movimento”, afirmou Alair em entrevista a Joaquim Paiva, em 1983.

Hippies – Feira da República [São Paulo, 1969]

Exibida aqui pela primeira vez, essa série de 32 fotografias realizada em São Paulo serve para mostrar como Alair estava sintonizado com os ecos libertários da contracultura, que mudaram significativamente o padrão comportamental da sociedade no final dos anos 1960. Paz, amor, sexo livre e poesia foram celebrados por Alair enquanto fotografava os hippies e sua arte na Praça da República. Ele tinha acabado de visitar a X Bienal de Arte de São Paulo, que ficou conhecida como a Bienal do boicote, marcada pelas contestações de artistas nacionais e estrangeiros após a invasão, por agentes da ditadura, da exposição pré-Bienal dos Jovens de Paris no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1969. É curioso perceber que, mesmo preocupado em registrar manifestações artísticas no espaço urbano, eleborando leituras sobre arte e política, Alair edita imagens nas quais um mesmo personagem surge diversas vezes, mimetizando a forma como circundamos uma escultura – abordagem e modo de representação que se tornou uma marca do artista.

Esportes [Rio de Janeiro, 1967-1969]

Nessas imagens inéditas, selecionadas no Acervo Alair Gomes, da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, Alair fotografa atletas de diversas modalidades esportivas. Esses registros, porém, são muitos diferentes daqueles que normalmente vemos na cobertura esportiva realizada por fotojornalistas. Alheio à competição, o olhar de Alair perscruta os corpos dos rapazes com foco na musculatura, no contorno, no movimento por meio do qual esses corpos bem torneados revelam a perfeição da forma. Flagrantes de uma adoração: “Bem-aventurado sou eu, por ter tantas vezes adorado a elevação e a manifestação da via sagrada do mundo na carne dos jovens rapazes”, escreveu Alair em seu diário.

Eder Chiodetto

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