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Olhar Imaginário – Rio de Janeiro 2011 – Texto do Curador

German Lorca: Olhar-Imaginário

Mostra individual do artista, que itinerou pelas sedes da Caixa Cultural em Brasília (de 02/06 a 04/07); Rio de Janeiro (de 20/07 a 29/08) e São Paulo (de 02/03 a 15/05/2011).

Curadoria: Eder Chiodetto
Produção executiva: Marie Eve Hippenmeyer
Museografia: Marcus Vinícius Santos
Luz: Alessandra Domingues
Patrocínio: edital Caixa Cultural

Sinais luminosos. Velocidade. Arranha-céus. Televisão. Guerra Fria. A industrialização e o clima do final da II Guerra Mundial, na segunda metade da década de 1940, impulsionaram o homem moderno a pensar e a ver o mundo por um prisma diferente do que vigorava até então, o que afetaria diretamente a arte no geral e a fotografia em particular.

Os temas bucólicos, a natureza morta e o romantismo, temas recorrentes da fotografia inspirada na pintura acadêmica, saíram de foco para dar lugar a uma ávida investigação sobre as múltiplas possibilidades de representação do visível. A cidade moderna, movida a som e fúria, carecia de uma iconografia renovada que a traduzisse.

É neste cenário que o paulistano German Lorca, nascido 100 dias após a realização da Semana de Arte Moderna de 1922, começa a fotografar em 1947 e no ano seguinte ingressa no Foto Cine Clube Bandeirante. Amigo e parceiro de criação do artista concretista Geraldo de Barros (1923-1998), Lorca e seu grupo restrito de amigos gestaram por meio da experimentação na fotografia uma nova forma de representar o seu tempo.

Enquanto a maioria dos fotoclubistas tinha a fotografia como um hobby, Lorca a assumiu como o seu ofício principal, atuando na área de “fotografia técnica, industrial e comercial, reportagens em geral e álbuns para crianças e casamento”. É notório como a experimentação formal cultivada no fotoclube auxiliou Lorca a ter mais consistência e originalidade mesmo em imagens realizadas comercialmente e, principalmente, no âmbito da publicidade, como na emblemática e surpreendente “Pernas” (c. 1970). De inspiração surrealista, esta imagem, realizada para um anúncio de meias femininas, se incorpora perfeitamente ao núcleo da produção artística e de caráter mais autoral do fotógrafo.

A ruptura com o documentarismo tradicional se deu a golpes de luz, sombras, geometria, múltiplas exposições, baixas velocidades, fotomontagens e solarizações entre outros recursos que ampliaram o repertório da fotografia, injetando subjetividade e incorporando a herança dos movimentos artísticos, como o surrealismo e o concretismo. Imagem e imaginação. Olhar-imaginário.

Esta atitude menos dogmática em relação ao registro fotográfico e seu estatuto documental por parte dos modernistas, foi de fundamental importância para passarmos a perceber a fotografia como um símbolo menos assertivo e mais complexo, como representação sujeita a livres interpretações e não como assunção mimética do real. Sensações, memórias afetivas, estados de ânimo e ficções, afinal, rondam e complementam a nossa vã noção de realidade, nos afirma a obra de Lorca e seus pares.

“German Lorca: olhar-imaginário” traz 57 obras criadas ao longo de 60 anos, entre 1949 e 2009, para sintetizar o espírito iconoclasta e libertário deste que é um dos fotógrafos mais instigantes da nossa história. Sua obra pode ser vista como um elo preciso entre o ideário modernista e a arte contemporânea brasileira.

Eder Chiodetto

curador

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GALERIA DE IMAGENS

PLANTA

Planta e imagens da montagem na Caixa Cultural, Rio de Janeiro