Noturnos – Betina Samaia – Texto do curador

Noturnos

Mostra individual de Betina Samaia
Museu Histórico Nacional – 29/05 a 26/07 de 2015
Rio de Janeiro

Curadoria: Eder Chiodetto

Noturnos

Psicóloga de formação, Betina Samaia encontrou na fotografia uma forma de expressão contundente para trazer à tona aquilo que normalmente não se revela aos nossos olhos, foge à nossa razão, mas existe e insiste no universo, na memória, no imaginário.

Por meio do uso da técnica de longas exposições em determinadas situações de luminosidade noturna, a fotógrafa obtém resultados surpreendentes: a luz artificial das cidades entra em perfeita sintonia com a luminiscência emitida pelas estrelas, asteroides e tantos outros corpos celestes. O espaço sideral, que em grande parte só se revela por meio de aparatos ópticos complexos, surge nas imagens de Betina criando uma tensão poética comovente, de rara beleza.

Antigamente algumas tribos indígenas acreditavam que as estrelas na verdade eram perfurações no céu. Através delas era possível vislumbrar que além do planeta Terra, haveriam outros mundos iluminados. As fotografias de Betina, de forma análoga, nos permitem perceber que de fato há outros mundos possíveis. Ela constata que a nossa visão falha, edita e interdita parte do existente. Entre o visível e o de fato existente há uma zona nebulosa que não apreendemos.

Essas fotografias, que versam mais sobre o campo sensorial que à razão, são metáforas potentes para abordar questões ligadas ao inconsciente e ao auto conhecimento. Eis o ponto preciso e original no qual Betina conecta seus estudos de psicologia com sua arte fotográfica.

Como apregoa o teórico Vilém Flusser, o artista que se apodera de uma câmera fotográfica deve ter como meta desprogramar o aparelho, fazendo com que a perspectiva visual restritiva imposta pelo engenheiro ganhe novas e criativas possibilidades de expressão. Caso contrário o fotógrafo será apenas um bem comportado funcionário do engenheiro a cumprir com disciplina as regras por ele impostas. Artistas como Betina Samaia investem no sentido de dar ao aparelho novas perspectivas, afim de libertar parcelas até então enclausuradas de beleza e poesia. A beleza incomparável da geografia carioca soa ainda mais mágica e idílica quando a artista nos revela as constelações existentes sobre o Cristo Redentor.

Eder Chiodetto

 

 

Captura de Tela 2015-06-08 às 15.30.54

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