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Mitologias – Shiseido Gallery – Texto do Curador

Mitologias – Fotografia Contemporânea Brasileira

Exposição coletiva realiza na Shiseido Gallery
27/10 a 23/12 de 2012
Tokyo – Japão

Curadoria: Eder Chiodetto
Direção de produção: Marie Eve Hippenmeyer
Produção local: Yu Iseki e equipe Shiseido Gallery

Uma complexa mescla de povos e culturas está na base da formação da identidade nacional dos brasileiros. Por circunstâncias históricas todo brasileiro é um ser multifacetado, mestiço. Equilibrar esta simbiose de etnias, credos e culturas distintas, para construir uma ideia de identidade que resulte num convívio harmônico e sem preconceitos, é um permanente desafio.

Quando descoberto pelos portugueses, em 1.500, o território brasileiro era ocupado por diversos povos indígenas. Na primeira metade do século XVI, foram trazidas grandes levas de escravos africanos principalmente para o trabalho nas lavouras. Depois da Abolição da escravatura, para substituir a mão-de-obra escrava, entre a segunda metade do século XIX e a primeira do século XX, o país recebeu cerca 5 milhões de imigrantes, entre os quais grande quantidade de japoneses. Hoje, o Brasil abriga a maior colônia de japoneses fora do Japão: cerca de 1,5 milhão de nikkeis.

Representar o intricado mosaico de influências que forma a nação brasileira tem sido uma questão presente na literatura, no cinema, no teatro, na música e nas artes visuais. Na fotografia, temas que exploram as diversas faces do povo brasileiro surgiram com força no fotodocumentarismo a partir dos anos 1950.

O multiculturalismo e a influência da paisagem, do clima, da flora e da fauna são focos importantes dos fotógrafos que em suas obras misturam documentarismo com experimentalismo, como os fotógrafos selecionados para esta mostra, realizada na galeria Shiseido.

Ao experimentarem estética e conceitualmente uma fotografia distinta do padrão do documentarismo clássico, estes artistas injetam maior subjetividade e poética às abordagens de seus temas. Estas estratégias de representação acabam tornando suas obras um campo fértil e complexo. Nelas, eixos relevantes da cultura brasileira surgem renovados por um olhar que busca sua quintessência.

Faces e rituais indígenas e africanos, a selva amazônica e o árido sertão são vistos mais pelo viés da metafísica e de uma busca do primordial do que pela abordagem social e histórica. Através deste prisma, o ser humano e a paisagem se transmutam em imagens em que emerge o mítico, o metafísico, o primordial.

As imagens de Mitologias – Fotografia Contemporânea Brasileira buscam representar o sagrado e encontrar em cada um dos temas o tempo das origens, do gênesis. Ao enveredar por este caminho, adquirem uma expressiva dimensão mítica e fabular. Os artistas invocam com grande vigor e de diferentes maneiras a ancestralidade para restaurar o sagrado, que a história contemporânea tende a esquecer.

Nas obras de Claudia Andujar e Eustáquio Neves os índios Yanomami e os descendentes de escravos, respectivamente, emergem em uma perspectiva tão poética quanto política.

No trabalho do nipo-brasileiro Kenji Ota, imagens de formações rochosas e da flora brasileira remetem ao primitivo, perene, secular. Suas preciosas impressões artesanais são realizadas com técnicas do século XIX, como o Vandyke Brown. Forma e conceito encontram, assim, uma representação orgânica e precisa.

João Castilho e Luiz Braga constroem narrativas visuais de dois lugares míticos do Brasil: o sertão e a Amazônia. Na série “Redemunho” Castilho dialoga com o clássico de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, para construir potentes metáforas sobre as lendas locais que falam da materialização do demônio na natureza. Braga mistura iluminação artificial com a luz natural e excepcional da Amazônia para representar de forma contundente a cultura da região. A luz e a cor atuam como signos determinantes das mitologias populares e de um estilo característico de vida.

O vídeo do coletivo Cia de Foto, “Sobre o Sol”, também utiliza a luz, no caso a luz solar, como veículo para trazer à tona a forma da paisagem e o embate entre natureza e cultura. Um raio de sol atinge a orla marítima com um inusitado formato geométrico, recortado pelos prédios à beira-mar. No vídeo “Provisão”, o Sol, enquadrado racionalmente pela ação do homem, explode no inesperado e desesperado gesto do personagem criado por Rodrigo Braga que, em um mesmo ato paradoxal, mata e tenta preservar uma árvore.

A série “Prefácio”, da Cia de Foto, criada especialmente para esta mostra, faz emergir, por meio de imagens de grande densidade poética, a ideia de ancestralidade e da percepção do mítico. O ser humano, a natureza e a luz são flagrados em seus ciclos vitais. A folha da planta que reluz, em seu microcosmo, equivale a uma constelação. Em cada pequeno gesto, em cada semente que espera por germinar, em cada ritual se revela a totalidade do universo.

“Mitologias” mostra o trabalho de admiráveis fotoartistas cujas obras nos revelam a dimensão mítica escondida no cotidiano.

Eder Chiodetto

Curador

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