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Inventário da Pele – Texto do Curador

Inventário da Pele

Mostra coletiva realizada na Sim Galeria
25/04 a 02/06 de 2012

Curadoria: Eder Chiodetto
Assistente de curadoria: Raquel Santos
Produção: Sim Galeria



Quando foi oficialmente inventada, em 1839, a fotografia surgiu na forma de daguerreótipos, a histórica criação de Louis-Jacques Mandé Daguerre (1787-1851). Curiosamente, esse invento, o primeiro a conseguir fixar uma imagem fotográfica, era também uma superfície reflexiva. Para olhar o mundo que ele representava era necessário ver-se também. Imagem dúbia que sobrepunha magicamente um passado represado e um presente contínuo.

A partir da segunda metade do século XIX, intensificaram-se as pesquisas de materiais sobre os quais poderiam ser impressas as imagens. Desde então, essa busca nunca mais cessou. Olhando em retrospectiva a história da fotografia, podemos perceber que sua evolução está em boa parte atrelada à investigação da superfície, ou seja, a epiderme da fotografia. Suporte poroso por onde a imagem “transpira”.

“Inventário da Pele” surge a partir de uma pesquisa focada na produção de artistas contemporâneos brasileiros que obstinadamente revisitam e atualizam a história das técnicas fotográficas, com o intuito de encontrar a forma de representação que melhor se ajuste aos seus anseios. Longe de se constituir numa empresa apenas formal, esses artistas se lançam na aventura das alquimias de substâncias e suportes justamente para expandir seus pontos de vistas, acrescentar um comentário ao que a câmera devolve mecanicamente e impregnar as superfícies de suas fotografias com altas voltagens de subjetividade. A fotografia resultante desses processos pode ganhar um contorno dialético e uma potência poética que finda por expandir o território simbólico da fotografia.

Ao revisitar técnicas do século XIX, artistas como Cris Bierrenbach e Kenji Ota criam um curioso diálogo anacrônico com a história da fotografia. Ao fotografar suas bonecas de infância, Bierrenbach optou pela técnica do daguerreótipo, de delicada e difícil confecção. Ao olharmos de frente essas bonecas nosso rosto se funde criando um terceiro e assustador personagem. A infância vista pelo daguerreótipo de Bierrenbach é de alta e incômoda densidade psicológica. O daguerreótipo, nesse caso, é ao mesmo tempo suporte e conceito.

Kenji Ota, por sua vez, imprime tecidos e papéis artesanais de algodão com a técnica denominada Vandyke Brown, inventada no século XIX, que utiliza elementos a base de ferro e prata para a impressão da imagem. Pedreiras, o mar, plantas e insetos formam uma espécie de cosmologia particular e de uma beleza contundente que o artista articula de forma sublime. Nesse caso, o referente muitas vezes perde a preponderância da representação, deixando que em primeiro plano se sobressaia as tramas e as luminescências que Ota lhes atribui, como quem pacientemente tece cada micro ponto dessas imagens únicas.

Os artistas Cássio Vasconcellos e Julia Kater recorrem a estratégias semelhantes de corte e colagem das imagens, recursos também largamente explorados ao longo da história da fotografia. Vasconcellos, na série “Paisagem Marinha” cria uma espécie de fábula submarina submetendo seus negativos a uma sucessão de cortes e remontagem artesanal, utilizando muitas vezes uma prosaica fita adesiva transparente para unir as partes, deixando que as bolhas de ar da fita mal adesivada façam as vezes das bolhas de ar existentes no fundo do mar. As escalas absurdas e a justaposição de tempos-espaços distintos levam essas fotografias no limite do diálogo com linguagens distintas como o desenho e a gravura.

Kater, que também realiza essa espécie de cirurgia com suas fotografias, o faz diretamente sobre as cópias em papel fotográfico e não intervindo em originais como Vasconcellos. A soma de várias imagens se acumulam e partes delas escapam por incisões do papel feitas pela artista para que cenas inesperadas e de forte simbolismo se espraiem. Em outros momentos, a artista opera com ponta seca sobre papel fotográfico monocromático, criando a sugestão de uma paisagem que serve de potente plataforma para o imaginário. O suporte é, para a artista, um campo de tensões que excitam, por meio de seus inesperados labirintos, a nossa imaginação.

E por falar nos labirintos da representação, é notável a forma como a nova geração de artistas, que se desenvolvem a partir das novas premissas tecnológicas, do pensamento randômico e sem os dogmas classistas que outrora visavam classificar ações artísticas e linguagens como uma catalogação infrutífera.

Romy Pocztaruk, Tony Camargo e Cristiano Lenhardt, por exemplo, são artistas que transitam entre linguagens e por meio dessa liberdade de ação constroem seus mundos particulares com extrema delicadeza e originalidade. No vídeo digital “Hillingar”, Pocztaruk cria hiatos temporais que questionam a nossa capacidade de percepção. Com o LCD como suporte somos impelidos a pensar no movimento que o cenário, desolado e desacelerado, de forma cifrada vai aos poucos embotando a percepção do espectador.

Na série “Fotomódulos” o artista Tony Camargo realiza uma imbricação orgânica entre fotografia, pintura e performance. Os elementos coloridos extravasam o quadro e se recombinam de forma improvável na platitude do papel fotográfico brilhante que a tudo acomoda. A esse quadro instável e falsamente harmônico, o artista impõe formatos inusitados que fogem à tradição do retângulo e do quadrado, convocando assim, por último, o aporte da escultura para transformar sua representação numa forma híbrida em que as múltiplas linguagens surgem indissociáveis. O suporte como metamorfose permanente.

A série “Papel Sensível”, de Cristiano Lenhardt, reduz a fotografia a sua inscrição mínima. Por meio de uma operação que remete ao haikai, como conceito, e à tradição concretista, como forma, o papel de prata, a luz e a sombra se friccionam entre dobras para revelar uma ação que se torna forma. Uma condição matemática se impõe e se abre revelando fronteiras entre o preto, o branco e uma palheta de cinzas. Para Lenhardt o suporte é como uma caixa de ressonância  onde os elementos internos se recombinam ao sabor de um acaso parcialmente controlado para tocar a gênese da fotografia.

Também investigando a potência possível que determinados papéis podem atribuir às imagens fotográficas, Letícia Ranzani chegou de forma improvável aos papéis filtros de prosaicos saquinhos de chá. Impressos com jato de tinta, as imagens ganham transparência e podem ser observadas igualmente de ambos os lados do papel.

Fotografias que iludem a percepção visual, pois podem ser vistas como figura impressa quando o olhar se detém sobre o papel, ou como uma nódoa de cor que impregna o mundo visível através dele, quando o olhar se prolonga além da superfície. Suporte efêmero que conota de forma poética e precisa o dilema entre memória e amnésia. Anti-suporte que ao mesmo tempo revela e apaga aquilo que a fotografia teve a ilusão de tornar perene.

“Inventário da Pele” inicia seu percurso no espaço expositivo com os daguerreótipos de Cris Bierrenbach, superfícies que absorvem, mas também refletem a luz, e finaliza com imagens impressas em chapas de inox, que têm a função de materializar a série “Corpo da Alma” da artista Rosângela Rennó.

Ao criar o que podemos denominar de um campo de batalha de representações, Rennó acomoda sobre o inox fotografias apropriadas da mídia em que personagens exibem fotografias de pessoas desaparecidas. O único vestígio que restou da passagem dessas pessoas pelo mundo são essas imagens, que agora tentam em vão encontrar as mesmas faces que um dia a incidência dos feixes de luz impregnaram a chapa sensível de uma câmera fotográfica para gerar o retrato. Suporte-espelho. Mas paradoxalmente, agora quem observa essas imagens é que se vê refletido sobre um retrato cujas feições não coincidem com as suas. Ilusão especular!

A fotografia tem essa magia, por vezes assustadora, de se manter no mundo enquanto o fluxo contínuo do tempo tende a apagar tudo. Só as fotografias, de fato, não acreditam na vulnerabilidade do homem. Talvez essa seja uma chave para compreendermos porque necessitamos tanto fotografar e colecionar nossas vidas em pequenos fragmentos.

Eder Chiodetto

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