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Henri Cartier-Bresson – Texto do Curador

Henri Cartier-Bresson: Fotógrafo

Exposição do artista francês realizada no Sesc Pinheiros, no contexto no ano da França no Brasil.
Sesc Pinheiros – 17/09 a 20/12 de 2009
São Paulo

Coordenação Geral: Eder Chiodetto
Curadoria: Robert Delpire
Museografia: Marta Bogéa
Produção Executiva: Marie Eve Hippenmeyer
Direção de Produção: Escamilla Soluções Culturais

A vida, uma dança!
“Tirar fotos é prender a respiração quando todas as faculdades convergem para a realidade fugaz. É organizar rigorosamente as formas visuais percebidas para expressar o seu significado. É pôr numa mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração”. Esta imbatível definição de Henri Cartier-Bresson (1908-2004) para o ato de fotografar é o melhor ponto de partida para entender a magnitude e a repercussão de sua obra.

De posse de uma Leica, a câmera que dotou os fotógrafos do poder da “invisibilidade” graças ao tamanho e ao peso diminutos se comparados aos equipamentos de época, Cartier-Bresson encarnou um autêntico flâneur.  Celebrado pelo poeta Charles Baudelaire (1821-1867), o “personagem” se deixa seduzir e ser conduzido aleatoriamente pelos erráticos caminhos das ruas parisienses enquanto contempla histórias e imagens. Cartier-Bresson não fez diferente e dizia o seguinte: “A foto em si não me interessa, mas sim a reportagem, a comunicação entre o mundo e o homem comum. E há este instrumento maravilhoso, a câmera, que passa despercebida. Pelo visor, a vida é como uma dança!”

Com faro peculiar para flagrantes, Cartier-Bresson fotografa com o gosto de um caçador que persegue instintivamente sua presa. Incansável, busca o momento em que a harmonia do universo conspira a favor do artista, a fração mínima de tempo em que forma e conteúdo atingem o limite da expressão e da perfeição diante da câmera.

“Para mim, o aparelho fotográfico é um caderno de notas, um instrumento da intuição e da espontaneidade, senhor do instante que _em termos visuais _ pergunta e responde a um só tempo. Para expressarmos o mundo temos de nos sentir envolvidos com aquilo que descobrimos no visor. Esta atitude exige concentração, disciplina mental, sensibilidade e senso de equilíbrio geométrico. É pela grande economia de meios que se chega à simplicidade de expressão.” Dito por Cartier-Bresson, tudo parece simples.

A foto, um tiro!
A paixão pelo prosaico e pela fugacidade da vida são evidentes na obra de Cartier-Bresson. Sua investigação não deseja a grandiosidade da fotografia, mas a descoberta da beleza escondida no caos, a delicadeza dos gestos cotidianos. Ainda assim, ele não escapa de outra missão: o registro de momentos históricos _alguns grandiosos _, como os que estão expostos nesta sala.

Dessa forma, ele abre caminhos para uma linhagem de “fotógrafos humanistas”. Alguns deles se reúnem em torno da agência Magnum, fundada em 1947 por ele, Robert Capa e David Seymour, entre outros profissionais.

Antes disso, em 1931, Cartier-Bresson começa a fotografar influenciado pelos surrealistas. “Não pela pintura deles, mas pela percepção do subconsciente”, afirmava. No início dos anos 1970, depois de uma conversa com o amigo e crítico de arte Tériade, ele praticamente para de fotografar: “Ele me dizia: você já disse tudo o que podia. Não deve se repetir. Você precisa se questionar. Isso é uma atitude libertária”, revelou o fotógrafo.

Ao aposentar a câmera, o artista se abriga no desenho e na pintura. “Não tenho saudades. O desenho é uma meditação enquanto a foto é um tiro”.

Com meditação e reclusão, ele passa a fugir do assédio público. “A fama é horrível, horrível. Ficamos acorrentados”, dizia.

Bresson morreu em 2004, quando a fotografia já havia sido impactada por profundas transformações em virtude das novas tecnologias. Calcada na sensibilidade, na argúcia e no rigor estético, a visão de mundo de Cartier-Bresson e seus pares pode, ao primeiro olhar, parecer desconectada desses novos tempos. Mera ilusão. Ainda que a era da informação e da velocidade se iluda com a crença de que o instante decisivo ocorre o tempo todo, on line, Cartier-Bresson e sua obra permanecem como o fio da meada para o resgate de uma sensibilidade em  aparente extinção.

Bressonianas
O encontro entre Henri Cartier-Bresson e a pequena câmera Leica, na década de 1930, propicia uma nova forma de percepção e registro dos movimentos humanos na paisagem urbana. O flagrante, o congelamento de cenas dinâmicas e a agilidade permitida pela nova máquina mais a perspicácia e o instinto do fotógrafo revelam o viés surreal da vida. Libertam parcelas de beleza escondidas no cotidiano.

Para Cartier-Bresson, importa prioritariamente o momento breve em que, ao acaso, forma e conteúdo espreitam a composição perfeita, o diálogo inesperado entre o vivo e o inanimado, a harmonia da geometria, o olhar bem-humorado que torna lúdico o banal.

Ao revelar essa potência expressiva nas ruas, Cartier-Bresson influencia muitas gerações de street photopraphers pelo mundo. Bressonianas exibe uma amostra da obra de sete fotógrafos brasileiros que, em comum, têm o gosto pela fotografia de rua e pela captura de instantes poéticos em que o fluxo contínuo do tempo parece em suspensão.

Para todos, Cartier-Bresson é uma influência clara. A capacidade nacional de criar uma leitura antropofágica de um mestre, no entanto,  faz os trabalhos se descolarem da referência inicial. Um olhar matreiro, entre o jocoso e o irônico, muitas vezes acrescenta à estética bressoniana um ingrediente solar, tropical, original.

Flávio Damm, Carlos Moreira, Cristiano Mascaro, Orlando Azevedo, Juan Esteves, Marcelo Buainain e Tuca Vieira têm também em comum o gosto por utilizar a câmera _geralmente a Leica_ como uma espécie de motor com o qual se aventuram pelas calçadas do mundo. Realizadas em paralelo às suas atividades profissionais, essas imagens bressonianas compõem, pelo prazer da captura, a parte mais afetiva de seus acervos pessoais.

Eder Chiodetto

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