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Fotografia de Rua – Tuca Vieira – Texto do curador

Fotografia de Rua

Exposição individual do artista Tuca Vieira
Centro Universitário Maria Antonia – 27/03 a 01/06 de 2008
São Paulo

Curadoria: Eder Chiodetto

 

Cidade imaginária

Cidades são lugares que não existem. Uma cidade é a proposição efêmera de um território fragmentado pela acumulação desigual de tempos. Perceber o todo desse espaço é uma impossibilidade. Ao reunir os fragmentos que formam a urbe, seja na memória, seja na imagem, múltiplas cidades até então invisíveis tomam forma. Andar à deriva numa metrópole significa reconstruí-la, dotá-la de novos significados. A cada novo trajeto uma nova cidade se desenha. Cidade e homem são dois vetores em movimento contínuo constituídos de histórias do passado num presente fugaz em direção à inevitabilidade e à fatalidade do futuro. Mutante no tempo e no espaço, a cidade desafia quem tenta apreendê-la e entendê-la como um corpo único. Toda cidade é composta em parte pela sua concretude e parte pelo imaginário que desperta em cada habitante. Logo, as cidades só podem existir enquanto narrativa.

Pautada necessariamente pela subjetividade, a narrativa é a negação da existência de uma cidade única.

Cada pessoa, portanto, é uma cidade fechada em si. Ouanto mais o fotógrafo encapsula a cidade, congelando no tempo monumentos e movimentos, mais ele está revelando sua própria arquitetura interior. O fotógrafo andarilho percorre a cidade, esse entreposto de desejos, ânsias, amores furtivos, memórias indeléveis e fluxos interrompidos na vã tentativa de harmonizar a golpes de luz e sombra o caos que o espreita a cada esquina dobrada. Os labirintos da cidade são uma metáfora dos desencontros do próprio fotógrafo que, na precisão de seu caminho errático, busca obsessivamente a compreensão e a expansão de si entre calçadas remendadas e sombras que prenunciam a noite matizada de luzes artificiais.

Tuca Vieira é um primoroso fotógrafo andarilho em busca de uma cidade imaginária. Os jogos de sombras, ângulos e geometrias abstraídas no preto-e-branco se harmonizam em seu visor causando um deslocamento de percepção. Ao fim de tudo resta uma cidade particular, quase totalmente descolada da cidade que lhe serviu de ponto de partida. Fotografia de Rua é um dos avessos possíveis da cidade de São Paulo.

Insólito, misterioso, permeado por uma atmosfera lúgubre que denota a solidão do andarilho, este ensaio mescla influências da tradição da fotografia de rua francesa, com a estética sedutora dos filmes noir sem, no entanto, abrir mão de questões contemporâneas que falam da relação do homem com a paisagem urbana. Um golpe de vista. Um golpe de mestre.

Eder Chiodetto

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