Doc Galeria – Texto do curador

Quimeras, apólogos e algumas fábulas

Mostra coletiva de artistas integrantes do Ateliê Fotô
DOC Galeria – 18/05 a 24/06/17
São Paulo

Curadoria: Eder Chiodetto

Justapor tensões criativas. Encontrar paralelismos simbólicos possíveis entre autores de linguagens distintas. Entender onde principia o afã que move o motor da expressão artística. Codificar palavras em imagens e vice-versa.

Cada um dos oito artistas aqui reunidos – todos integrantes do Programa de Estudos Avançados em Fotografia do Ateliê Fotô – foram provocados a encontrar pontos de contato de seus trabalhos com um determinado escritor.

A curadoria indicou obras literárias por associações, aproximações poéticas e pela atmosfera que suscitavam um instigante trânsito entre imagens e verbos. Outras vezes, o ponto de contato se deu pelo epicentro do gesto criador de ambos que avizinhavam-se por questões conceituais ou filosóficas.

Dessa forma foram criados os pares Ana Almeida – Eugène Ionesco; Elaine Pessoa – Marcel Proust; Helô Mello – Jorge Luis Borges; Juvenal Antunes – Fiódor Dostoiévski; Marcelo Costa – João Cabral de Melo Neto; Marilde Stropp – Franz Kafka; Sheila Oliveira – Clarice Lispector e Sonia Dias – Hans Christian Andersen.

Na fricção entre fotografias e literatura, os processos narrativos que adensam os ensaios de cada autor ficaram mais evidentes: entre fábulas e apólogos, a quimera existente em cada projeto irrompeu de forma cristalina.

Diante da falta de sentido absoluto, volto para o detalhe, o insignificante, o momentâneo. Respondo ao caos por meio de formas fraturadas e disformes, das paródias, das justaposições, dos registros de fluxo da consciência, da ambiguidade e do humor irônico, escreveu a artista Ana Almeida durante sua imersão no Teatro do Absurdo de Ionesco. Imersão essa que foi semelhante a de todos os artistas aqui presentes, que em nenhum momento recorreram ao caminho fácil de ilustrar com imagens o texto literário proposto.

O desafio consistia em desdobrar a própria obra – por isso cada um dos fotógrafos precisou remexer a fundo seus acervos – à luz da obra de outro autor, em outra linguagem, no caso a literatura. Tal exercício, mais do que almejar uma simples aproximação entre autores, visou fazer com que cada artista do grupo fosse levado a ver-se espelhado pela visão de um outro autor. Cair para dentro de si. Olhares em rebatimento.

Como resultado, os artistas conseguiram perceber que em seus acervos há muitos pontos de contato entre séries fotográficas que outrora pareciam desconectadas. A trajetória de cada um surgiu renovada e com novos elos simbólicos que propiciam outros níveis de vínculo narrativo.

Se no outro é possível encontrarmos nós mesmos, ficou claro, nessa relação dialógica, que em cada um de nós o mundo inteiro está à espreita, aguardando obras que o legitimem como expressão.

Eder Chiodetto e Fabiana Bruno

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