Discreto Silêncio das Cores – Texto do curador

O Discreto Silêncio das Cores

Mostra de Tatiana Guinle e Marcelo Carrera
Centro Cultural Justiça Federal – 15/04 a 31/05 de 2015
Rio de Janeiro

Curadoria: Eder Chiodetto
Impressão: Pandora Pix

Monumentos à amnésia

Você fotografa para quê? Para quem? Onde estão agora todas as fotografias que você já fez? A quem elas interessam? Elas estarão neste mundo quando você não estiver mais nele? E, se estiverem, onde estarão? Que poder de testemunho sobre você essas imagens preservam para as futuras gerações?

“O Discreto Silêncio das Cores” é fruto de uma pesquisa dos artistas Tatiana Guinle e Marcelo Carrera acerca dos paradoxos envolvidos na relação com as imagens fotográficas, às quais devotamos o poder de reter a memória das nossas próprias histórias. Todas as fotografias utilizadas nos trabalhos aqui presentes foram obtidas a partir de acervos familiares que permaneceram no mundo após serem abandonados pelas famílias, provavelmente porque os herdeiros dos herdeiros, em algum momento, deixaram de reconhecer as pessoas que protagonizam as imagens.

Como as fotografias inevitavelmente sobrevivem a nós, em algum momento elas passam a vagar pelo mundo como símbolos inócuos, desprendidas da razão que as fez existir, sem conexão com os laços afetivos e familiares que as fundaram. Ao deixar de narrar histórias de pessoas em específico, elas passam a falar mais claramente a respeito da complexa relação que temos com a nossa vulnerabilidade. As imagens de álbum de família guardam invariavelmente o lado doce de nossas vidas: as festas, os nascimentos, as viagens, os rituais de passagem. Os momentos dramáticos de dor e perda raramente são fotografados e, em geral, não vão para os álbuns familiares.

Essa narrativa fabular, asséptica e um tanto quanto falsa de nossas vidas finda por fazer todos os álbuns de família muito semelhantes. Logo, quando um determinado álbum de família se perde e trafega solitário pelo mundo, ele passa a apontar o destino cruel de todos os outros álbuns. Fotografar é uma forma de amenizar o incontornável confronto com a morte. Olhar uma fotografia do passado é uma das únicas possibilidades que temos de retroagir, de trair por um instante o fluxo natural do tempo.

Como símbolos desenraizados, vestígios de histórias que não se conectam mais a uma narrativa linear, essas imagens agora podem ser reativadas e reinseridas na sociedade a partir da imaginação e dos questionamentos dos artistas. O turbilhão de cópias fotográficas se torna uma espécie de alfabeto embaralhado com letras faltando, incapaz de escrever um conto, uma frase lógica. A informação que as imagens negam é justamente o propulsor para as estratégias criativas de Guinle e Carrera.

Os experimentos aqui expostos oscilam entre vãs tentativas de restaurar histórias e a aceitação dessa impossibilidade. Por vezes, as imagens surgem reorganizadas não mais pelo conteúdo que as ensejamas, por exemplo, pela exuberância das cores alteradas, pelas texturas, pelas feridas expostas que o tempo e o descuido impingiram aos originais, como ocorre na série que dá o título à exposição.

A obsessão em criar memórias perenes pode, na verdade, resultar na edificação de imensos monumentos à amnésia.

Você fotografa para quem?

Eder Chiodetto

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