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Dez anos do Clube de Fotografia (MAM) – Release

Dez anos do Clube de Fotografia

Exposição coletiva das obras doadas por 55 atistas para o Clube de Colecionadores de Fotografia do MAM-SP
Museu de Arte Moderna de São Paulo – 02/07 a 29/08 de 2010

Curadoria: Eder Chiodetto
Projeto expográfico: Anna Helena Villela, Maria Julia Herklotz
Design Visual: Duas Águas, Editora Anônima
Equipe: Carlito Carvalhosa, Luiza Kramer
Luz: Alessandra Domingues

Com o intuito de incentivar o colecionismo privado de fotografias e, ao mesmo tempo, incrementar seu acervo com a expressiva produção fotográfica brasileira, o Museu de Arte Moderna de São Paulo criou em 2000, por intermédio do seu então curador-chefe, Tadeu Chiarelli, o Clube de Colecionadores de Fotografia.

A coleção de fotografias do MAM-SP, porém, tornara-se mais sistemática cerca de vinte anos antes. Em meados dos anos 1990, quando o museu passou a apresentar, colecionar e discutir mais efetivamente a fotografia contemporânea, a coleção foi incrementada de maneira significativa. O Clube nasceu nesse momento de particular atenção à institucionalização do meio fotográfico, que coincide com o momento em que a fotografia brasileira ganha destaque no cenário internacional, sendo vista em mostras pelo mundo afora.

Nesse contexto de alta valorização da produção fotográfica, o MAM-SP decide investir na ampliação de seu acervo de fotografias tanto quanto em obras de outras linguagens artísticas. Algo semelhante se observa em instituições de várias partes do mundo. No Brasil, porém, o processo de redemocratização e suas implicações no contexto social ajudam a explicar a mudança de postura em relação à fotografia.

Na virada dos anos 1940 para os 1950, a fotografia brasileira experimentou novas possibilidades de abordagem, a partir de pesquisas de artistas modernistas como Geraldo de Barros, Thomaz Farkas e German Lorca – os dois últimos com obras no Clube. Por intermédio das obras desses e de outros artistas da mesma geração, a prática fotográfica se voltou para o experimentalismo das artes plásticas, em detrimento de sua função puramente testemunhal.

Esse processo, porém, seria interrompido anos mais tarde, no período que coincide com a ascensão dos governos militares. Esse arroubo experimental foi praticamente abortado na fotografia nacional, cuja ação recrudesceu, por questões óbvias, na direção da função documental, sobretudo no campo do fotojornalismo.

É como se a fotografia – que antes desse contexto político começava a se aventurar pelo campo da livre fruição subjetiva dos artistas, conferindo-lhe um caráter mais onírico – tivesse sido convocada pela sociedade a retomar o caráter objetivo de testemunha dos fatos. O caráter ficcional da fotografia – a ela inerente, como diversos pesquisadores indicaram ao longo do século XX – pareceu ser ignorado nesse momento em que ela ganha mais força e credibilidade pela capacidade de registrar a história e denunciar as mazelas de um regime que deveria ser, tanto quanto possível, questionado por parte dos produtores de informações não oficiais.

Fora exceções pontuais, a fotografia no Brasil atravessou um período de aproximadamente vinte anos distante do universo das artes plásticas. A guinada mais efetiva nessa direção ocorreu após o processo de abertura política, iniciado na metade dos anos 1980, que ajudou a fomentar um clima de diálogo com outras culturas, pautado por novas possibilidades de expressão e de representação, nas quais os artistas se voltaram para temas mais ligados a questões existenciais e subjetivas em substituição às abordagens sociopolíticas.

No caso da fotografia, especificamente, esse momento foi oportuno para iniciar questionamentos internos que objetivavam uma equivalência com o estatuto que ela já havia atingido no circuito das artes em outros locais do mundo, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. A fotografia brasileira, que não fora incluída na Semana de 1922 e tivera seu rompante de atitude modernista interrompido, podia finalmente buscar sua autonomia como linguagem expressiva livrando-se da filiação aos padrões da pintura acadêmica sob os quais era julgada nos salões realizados pelos fotoclubes e sem se limitar ao fotojornalismo.

Artistas como Mário Cravo Neto e Miguel Rio Branco – pioneiros em realizar exposições no exterior com trabalhos que apagavam os limites entre o documental e o experimental, implodindo definitivamente a dicotomia que aprisionava a fotografia em compartimentos – serviram de farol para uma nova e pulsante geração que surgiu com vigor na década de 1990, justamente quando o MAM-SP começa a concentrar esforços no sentido de acolher essa produção emergente.

A partir de 2006, por decisão do Conselho Consultivo de Arte, tanto o Clube de Colecionadores de Fotografia como o Clube de Colecionadores de Gravura passaram a ter curadores específicos investidos da função de pesquisar, selecionar artistas e, junto com esses, escolher os trabalhos a serem incorporados ao acervo do museu e às coleções particulares dos sócios.

Desde então, no Clube de Colecionadores de Fotografia, foram criadas frentes de pesquisa pautadas por vertentes da produção nacional que abarcam da fotografia documental à experimental, explorando as imbricações da linguagem com o real, suas fronteiras com a ficção e a fotografia como suporte do trabalho de diversos artistas que passaram a cruzá-la com linguagens como a performance, a pintura e a gravura, entre outras.

Identidade nacional, Documental imaginário, Limites/ Metalinguagem, Retrato/ Autorretrato e Vanguardas históricas são as frentes de pesquisa que buscam mapear as principais linhas de força da fotografia brasileira para que tanto o acervo do MAM-SP como as coleções particulares que se formam a partir das escolhas do curador do Clube, em comum acordo com a curadoria do museu, formem um conjunto representativo da produção nacional. Essas linhas de investigação servem como parâmetro à curadoria, embora diversos artistas trafeguem por mais de uma delas.

Em Identidade nacional, a pesquisa se insere na forte tradição brasileira do fotodocumentarismo, que trabalha, na maioria das vezes, temas ligados à cultura, problemas sociais, histórias que revelam em profundidade bastidores do país e raramente vêm à tona. Maureen Bisilliat, André Cypriano, Nair Benedicto, Paula Sampaio, Ricardo Teles e Bárbara Wagner, por exemplo, integram esse grupo.

Documental imaginário é a frente de pesquisa que busca incorporar à coleção do museu uma vertente renovada do fotodocumentarismo, que surge claramente após a década de 1990 e se acentua com o desenvolvimento das novas tecnologias. Nela, ao ponto de partida documental soma-se uma grande subjetividade, tendo muitas vezes a literatura e o cinema como inspiração. O trabalho de pós-produção injeta uma carga de lirismo despreocupado com o purismo de um relato realista, em claro diálogo com a poética do realismo mágico da literatura latino-americana. Alguns trabalhos que se identificam com essa tendência e foram integrados à coleção do MAM-SP nos últimos anos por intermédio do Clube de Colecionadores de Fotografia são de autoria de Luiz Braga, Cia de Foto, Pedro Motta, João Castilho e Cao Guimarães, entre outros.

Limites/ Metalinguagem é a frente exploratória que mais trabalhos tem oferecido ao acervo e aos sócios do Clube, justamente por travar um diálogo mais abrangente com o restante da coleção de arte contemporânea do MAM-SP. Isso pode ser observado pela ampliação do repertório que a fotografia passou a exibir após incorporar o pensamento de teóricos que, sobretudo na segunda metade do século XX, desconstruíram a ideia da fotografia como mimese do real. A revolução tecnológica das últimas décadas também ajudou a situar a fotografia entre as linguagens mais discutidas e exibidas nas mostras de arte pelo mundo.

A fotografia passou a integrar o arsenal de ferramentas de artistas que não são fotógrafos strictu sensu, mas se apropriam da imagem fotográfica das mais variadas maneiras como suporte para seus trabalhos, como nos casos de Rosângela Rennó, Adriana Varejão, Odires Mlászho, Amilcar Packer, Sandra Cinto, Thiago Rocha Pitta, Tony Camargo e Felipe Cama.

Outros artistas enveredam, em algumas de suas séries, por um questionamento que atinge o cerne da própria gestação de imagens técnicas, discutindo o estatuto da fotografia seja por questões formais, seja por uma crítica bem articulada ao predomínio da imagem e de seus desígnios na sociedade contemporânea. É o ramo que chamamos de Metalinguagem. É o caso de trabalhos como os de Fernando Lemos, Lenora de Barros, Cristina Guerra, Guilherme Maranhão, Vicente de Mello, Caio Reisewitz, Rochelle Costi, Márcia Xavier, Lucia Koch, Bob Wolfenson e Edu Marin.

Retrato/ Autorretrato é a frente de pesquisa que busca pontuar na produção nacional a evolução e a complexidade que a representação do outro e de si próprio alcançou nos dias de hoje; é, certamente, o gênero de fotografia mais presente em toda a história.

Muitos desses trabalhos desnudam o jogo teatral que existe quando se constrói a equação fotógrafo-câmera-personagem, sendo que muitas vezes o primeiro e o segundo podem ser a mesma pessoa, como ocorre nos casos de Rodrigo Braga, Vera Chaves Barcellos, Tony Camargo e Rafel Assef. A representação do outro também pode ser a livre criação de um ser imaginário que é a somatória da projeção dos devaneios do fotógrafo e do personagem à sua frente, como nos retratos de Vânia Toledo, Eduardo Ruegg, Penna Prearo, Klaus Mitteldorf, Claudio Elisabestky e Jair Lanes.

A última frente de investigação, Vanguardas históricas, visa integrar ao acervo do museu autores e trabalhos que em diversos momentos da história da fotografia brasileira tiveram uma importância fundamental para renovar a produção e o pensamento do fazer fotográfico, revendo e quebrando paradigmas, lançando novas possibilidades de abordagens tanto artísticas como políticas, por vezes ambas.

É o caso de Boris Kossoy, Fernando Lemos, Nair Benedicto, Claudia Andujar, Thomaz Farkas, German Lorca, Maurren Bisilliat, Walter Firmo, Cristiano Mascaro e Vânia Toledo.

A existência do Clube de Colecionadores de Fotografia do MAM-SP é possível graças à parceria entre o museu e os artistas, que doam seus trabalhos com a convicção de que estão ajudando a construir um acervo perene de extrema importância no contexto nacional, além de fomentar a criação de coleções particulares e, assim, fazer com que a fotografia brasileira, nas suas mais diversas manifestações, crie um mosaico que possibilite uma visão plural, humanista e de grande densidade poética da cultura brasileira.

 

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