Constelações – Texto do curador

Constelações, intermitências e alguns rumores

Mostra coletiva de artistas integrantes do Ateliê Fotô
VI Festival de Fotografia de Tiradentes – 09/03 a 13/03 de 2016
Minas Gerais

Curadoria e textos: Eder Chiodetto e Fabiana Bruno

 

Toda produção artística possui um centro irradiador, uma centelha que ilumina subjetividades, gestos, experiências, pontos de vista. Quando o artista persiste na prospecção dessa fonte criativa – que significa enfrentar com coragem suas limitações e labirintos internos – é natural que dessa empreitada se desdobre uma miríade de trabalhos, referências, ensaios, aproximações estéticas e conceituais com a história da arte e a reflexão teórica. Rumo a uma constelação.

No Ateliê Fotô, espaço de estudos e de orientação, a atividade criativa, ao ser sensibilizada pelo conceito de “constelações”, desperta e revela produções que dialogam entre o conhecimento do criador com o seu universo (o seu cosmo) e o seu tempo (o mundo). Entendemos que estimular cada um desses criadores a conviver mais amiúde com conceitos, estratégias poéticas e referências, tende a gerar uma expansão do cosmo particular. Gravitar em torno de suas obsessões até que o fluxo sensível do pensamento encontre a representação mais genuína num conjunto de imagens.

As constelações são fontes límpidas em profusão metafóricas que abrem passagem para trafegar pela estética, pela geometria e mistérios da luz e das formas, deixando-se ver e serem vistas, como experiência de uma síntese em explosão. Esta exposição apresenta a produção de sete artistas visuais, cujos repertórios, embora distintos, assinalam uma orientação pelo vértice da potência do pensamento em imagem. Os artistas aqui selecionados se reúnem sob o signo da busca subjetiva sejam esses motivados por questões autobiográficas, citações à história da arte e da fotografia ou por releituras de cunho metafísico sobre a existência.

Ao investirmos no preceito de “constelação”, apoiados em pilares teóricos em torno do pensamento por imagem, provocamos também experimentações em intermitências. No primeiro movimento, o artista é conduzido ao centro de seu cosmo e nesse território, arregimenta seus astros, suas cores, seus sentidos mais íntimos nas imediações do viver, reconhecendo sua linguagem e suas proposições. Depois, tem-se a concretude dessa trajetória, a obra constelada.

O visitante da mostra é convidado a lançar-se a um desafio: montar sua própria constelação a partir da leitura e releitura das obras de cada um dos sete artistas. Nessa experiência, é certo que descobrirá gritos, êxtases, ecos de sensibilidade e alguns rumores, mas também a dor e o prazer de dialogar com o mundo.

Natasha Ganme

Uma mulher alada e exuberante cobre os olhos com suas asas negras. Os olhos que abandonam a luz para flertar com a escuridão agora enxergam pequenas luminescências que constelam em torno de uma subjetividade integrada com o cosmo. Os olhos cerrados agora anunciam uma conjunção estelar de símbolos que sintetizam desejos, temores, a sensualidade daquilo que é vulnerável, o perfume da existência.

Fotógrafa singular, Natasha articula intermitências de uma ecologia do ser à carga de significação do sensível em nós. O trabalho de autorretrato, que persiste mesmo nas imagens em que a artista não se fotografa, revela um percurso de pesquisa de elementos e signos que se reúnem em suas expressivas composições. Formam-se, assim, narrativas inesperadas que flagram o universo lúdico, fantasioso e traumático à golpes de luz, experiências e alguns rumores.

Elaine Pessoa

Recombinando extratos temporais de uma paisagem-afeto, gestada a partir de uma experiência de rememoração, a constelação imagética de Elaine Pessoa é um composto de diversas matizes que esculpem o apagamento. A latência da forma surge a meio caminho entre o visível e o nebuloso. Uma atmosfera do fantástico, adornada pela poeira do tempo, do acúmulo cinzento, da grisalha.

Construída com as altas e baixas luzes, sua fotografia entra em conectividade com o cosmo de um território demarcado pela opacidade de sombras silenciosas, densas e saturadas de precipitações e sentidos. A fotógrafa ousa de sua qualidade experimental ao provocar repetição em deslocamento. Usa o tempo como elaboração do próprio experimento para jogar com a sobre-determinação dos grãos e da luz. Enquanto procura pela divindade da matéria-memória nos faz ver e sentir a evanescência do mistério.

Marilde Stropp

Claro-escuro. Intermitências de uma identidade não-narrativa, ritmada por linhas, impregnadas de um tempo grávido, do ato perene de observar a si mesmo, mas também de atentar-se aos rumores do outro que habita em mim. Reunindo agostos e provocando expressões a partir da temporalidade vital, Marilde Stropp registra, seleciona e inscreve atos, revelados por uma pulsação de linhas a dançar entrelaçadas numa metáfora de silêncios, acasos e subversões do gesto de criar.

A artista transcorre do material, da fotografia à gravura, e convida-nos para visitações ao sensível imemorial, verdadeiros veículo de luminescências, mas também de células de vida. Ao mirá-la, resta na íris sempre um quase rumor de magnetismo. Frágeis, tanto quanto efêmeras, o seu traço de luz inscreve marcas, manchas, emendas, costuras, transbordando memórias. Absortas e entregues à coreografia do fluxo, as linhas esticam-se ligando e religando vida e transcendência.

Ana Lúcia Mariz

Ao adotar antigas fotografias de família, abandonadas pela sobreposição de tempos e gerações, a artista Ana Lúcia Mariz encoraja-se a abortar a identidade de personagens esquecidos, apartados de um começo, de suas origens, lançados a um estado de nulidade eterna. A intermitência vem num gesto interventivo, ao propor o apagamento dos viventes das antigas fotografias, abrigando-os, talvez, num firmamento, um além-lugar, preservados do esquecimento dos homens e de suas vãs eternidades.

Das antigas fotografias, agora avistam-se ruínas. A reconfiguração dos antigos cenários é instaurada em bordados misteriosos, um pesponto em linha branca, sobre um tecido negro, um território também órfão de luz. Ato denunciatório, de tempos mortos, a memória dos eternos arquétipos da paisagem do lugar. A obra da artista subverte o rigor da técnica e constela-se com a insubmissão dos que desafiam lugares para a alma.

Marcelo Costa

Padrão, repetição, enfado. Marcelo Costa é um cronista de temas crônicos. Orbitam em sua obra o vazio, o tempo morto, a diapasão contínua dos entreatos que soterram o pulso da vida. Esse nada, porém, requer muito esforço físico. O fotógrafo performa como um Sísifo contemporâneo – personagem da mitologia grega que, castigado pelos deuses, foi condenado a rolar, por toda a eternidade, uma grande pedra com suas mãos até o cume de uma montanha. Quando estava alcançando o topo, a pedra rolava montanha abaixo até o ponto de partida, invalidando o grande esforço despendido. Era hora então de recomeçar novamente o mesmo trabalho indefinidamente.

Ao transportar o drama de Sísifo para os nossos incessantes gestos cotidianos, Marcelo gera uma espécie de partitura musical monocórdica. Uma ladainha enfadonha, mas que aqui se configura com humor e certo escárnio, como ocorre também no padrão arquitetônico que o artista subverte todo para alterar praticamente nada.

Sheila Oliveira

A vulnerabilidade da vida, confortada na reunião dos afetos que criamos, gera na artista uma instância de reflexão e produção artística que nos conduz por uma miríade de abordagens sobre a matéria sensível da existência. Por meio de imagens do entorno familiar, memórias, colagens de tempos e vestígios de histórias, revela-se a parcela de transcendência que se oculta sutilmente nas relações tecidas dia a dia.

Há metafísica bastante em não pensar em nada, nos diz o poeta Fernando Pessoa, posto que investigar sobre os desígnios e mistérios da existência, nos leva a uma abordagem racionalizante e distorcida sobre o que é naturalmente da ordem do imponderável. Mas pensar em nada, no entanto, não objetiva o nada, o vazio. É essa inefável matéria metafísica que leva Sheila a criar obras que sintetizam, com grande desenvoltura poética, uma forma de pré-pensamento sobre as coisas. O imaginário que antecede a imagem.

Carolina Krieger

Sonhos e pesadelos convulsivos de olhos abertos ou fechados, inflexões literárias, arroubos de prazeres incontidos, a ressonância da vivência subjetiva, a percepção do futuro inscrito no passado longínquo, a beleza sublime do que repousa morto em vida, o paraíso despojado de riso frouxo como rebeldia a endemoniar roteiros insossos pré-estabelecidos. O que de fato nos é essencial?

As inscrições de Carolina Kieger no mundo passam pela aceitação de um todo caótico que, ponderado pelos afetos e o acúmulo de saberes, se harmoniza no intangível das sensações que a artista traz à tona com seu caledoscópio de imagens. Complexo estelar que flerta com a natureza íntima das coisas, de si mesma, da fotografia que, sob seus olhos, se transformam em ritos de origem, de princípios e êxtases intermitentes.

 

Eder Chiodetto e Fabiana Bruno

 

 

Captura de Tela 2016-03-07 às 10.29.04

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