Coleção Itaú – Ribeirão Preto

COLEÇÃO ITAÚ DE FOTOGRAFIA BRASILEIRA

Exposição coletiva realizada no Instituto Figueiredo Ferraz, em Ribeirão Preto – 08/11 a 13/12 de 2014

São Paulo

Curadoria: Eder Chiodetto


Expografia: Marcus Vinícius Santos

O Elogio da Vertigem

Essa mostra apresenta um recorte da Coleção Itaú de Fotografia Brasileira com obras dos últimos 60 anos da produção fotográfica de caráter experimental. Fotografias realizadas no âmbito dos fotoclubes a partir do final dos anos 1940 – ícones do modernismo tardio da fotografia brasileira -, são expostas ao lado de obras de artistas contemporâneos.

Entre as duas gerações observamos um vácuo de cerca de 21 anos na produção deste tipo de fotografia que busca, por meio de diversas estratégias, tornar a fotografia um campo de experimentação resultando em abordagens mais complexas, subjetivas e oníricas. Não à toa, esse vácuo se deu no período da ditadura militar, entre 1964 e 1985.

A fotografia não foi apresentada como uma linguagem artística na Semana de Arte Moderna de 1922. Na Europa, no entanto, artistas impulsionados pelo dadaísmo e pelo surrealismo já haviam levado a fotografia a experimentar voos libertários. No Brasil, demoraria mais de duas décadas para esses impulsos ecoarem. Colaboraram decisivamente para a mudança de patamar a chegada de fotógrafos europeus que, escapando das agruras da Segunda Guerra Mundial, começaram a trabalhar no Brasil disseminando os preceitos modernistas.

No campo mais experimental, foi fundamental a produção singular de Geraldo de Barros (1923-1998). Suas experiências incluíam fotomontagens, colagens e intervenções diretas no negativo que resultavam em abstrações e num pulsante elogio das formas, como se pode observar nas fotografias que constituem o núcleo “modernista” dentro da Coleção Itaú. A partir do final dos anos 1940, vários fotoclubistas − como José Yalenti, José Oiticica Filho, Georges Radó e German Lorca, por exemplo − enveredaram por esse caminho que levava à busca de uma linguagem autônoma para a fotografia, criando um primeiro período mais consolidado do que podemos chamar de fotografia experimental.

Sugerir pontos de contato entre os tempos pré e pós-ditadura é um dos intentos da exposição, posto que sob a ditadura militar, a fotografia voltou-se quase exclusivamente para sua funcionalidade documental, raramente conseguindo direcionar um olhar mais crítico ao regime, em razão da censura imposta aos meios de comunicação.

O fim da ditadura militar e o processo de democratização criaram uma renovada atmosfera que propiciou a retomada mais livre e menos dogmática da produção artística na fotografia. Realismo e ficção se mesclaram de tal modo, que uma espécie de vertigem passou a ser a melhor forma de encontrar uma raiz definidora da estética e da visão deste período.

A nova geração seguiu esses passos que se refletem, como podemos observar, na produção dos jovens artistas aqui presentes, num território expandido em que a fotografia muitas vezes surge na imbricação com outras linguagens como a escultura, o vídeo, a performance, a pintura e a gravura.

Para a mostra no Instituto Figueiredo Ferraz a curadoria optou por uma seleção de obras em boa parte distinta das outras sete cidades pela qual a mostra já passou. Reforçou-se aqui o caráter do experimentalismo de autores que ajudaram a fotografia a expandir seu repertório de representação e que nesse espaço podem ecoar de forma muito instigante com a prestigiosa coleção de arte contemporânea brasileira do IFF.

A envergadura estética e conceitual que a fotografia brasileira alcançou nos últimos anos, tem como pano de fundo um histórico de sobressaltos sociopolíticos e econômicos. Sem a necessidade que havia durante e logo após a ditadura militar, de se tentar restaurar um projeto de identidade nacional, os artistas agora se debruçam sobre temas mais subjetivos, metalinguísticos e universais, ecoando questões formais e poéticas herdadas dos modernistas, porém, reconfigurado-as sob o status das questões contemporâneas que abordam. Essa liberdade diante do código fotográfico remonta a atitude antropofágica propalada por Oswald de Andrade, que, no Manifesto Pau-Brasil, pedia estrelas familiarizadas com negativos fotográficos”.

Assim como já aconteceu nas outras cidades por onde passou essa mostra, a curadoria manteve, também em Ribeirão Preto, uma montagem que visa desacomodar as obras da sua cronologia para estabelecer, assim, um espelhamento lúdico no qual se evidenciam relações formais – mas, sobretudo, uma atitude libertária diante da representação fotográfica entre os dois períodos abordados. Uma maneira de salientar que a evolução de uma linguagem não se dá, necessariamente, de forma linear, mas em vertiginosas espirais desenhadas pelo tempo e pela cultura.

Eder Chiodetto

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