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Casas do Brasil – Texto do curador

CASAS DO BRASIL

Mostra coletiva com a participação dos artistas Marcelo Zocchio, Bruno Faria e Cia de Foto
Museu da Casa Brasileira – 16/10 a 25/11 de 2007

Curadoria: Eder Chiodetto
Museografia: Marta Bogéa e Giancarlo Latorraca
Comunicação visual: Paula Tinoco
Projeto Gráfico: Estúdio Colírio

 

Ter um corpo implica na necessidade de se ter uma casa para abrigá-Io. A casa é o abrigo das intempéries e ao mesmo tempo uma demarcação territorial que nos localiza no mundo, nos atribui identidade e legitimidade como cidadãos. Alguns metros quadrados, um piso e um telhado sustentado por algumas paredes, portanto, nos configura como personagem social e têm a capacidade de nos circunscrever ao infinito espaço interior de nós mesmos.

A casa, o refúgio, o abrigo, a morada, porém, é um espaço físico e simbólico a ser conquistado pelo homem. Para assegurar o seu lugar no mundo, sua referência sócio-geográfica, o homem deve se debater com uma miríade de fatores econômicos, políticos, culturais e sociais que determinarão e demarcarão, enfim, seu território recortado no grande latifúndio das ambições e dos desejos humanos. A casa em que moramos, nesse sentido, é a resultante de uma série de disputas de poder dentro da sociedade.

Numa sociedade que apresenta níveis alarmantes de desigualdade social, o embate necessário à conquista da casa própria e consequentemente da nossa afirmação como personagem social, espelha as fissuras do projeto de vida em sociedade que a humanidade colocou em prática até agora.

“Casas do Brasil”, sob esse prisma, se oferece como um tema vibrante e de grande interesse para ser pensado por meio de diversas áreas do conhecimento e particularmente pela arte contemporânea que faz dessas assimetrias do humano o mote da sua criação.

Esta mostra apresentada no Museu da Casa Brasileira não tem o intuito de conciliar oposições ou tentar nivelar tais assimetrias, mas sim de salientá-las para que adquiram relevo. Dessa forma a mostra foi gestada como uma invasão. Três formas de habitação que ocupam uma quarta, justamente o prédio do Museu, com arquitetura que os especialistas nomeiam de neoclássico tardio, que por si só já invoca um tempo e uma aspiração de vida bastante diversa dos três ambientes que ele agora abriga em seu interior.

Mais que retratar formas de moradias no Brasil urbano e contemporâneo, o projeto curatorial buscou através de paralelismos e contrastes pensar por meio da expressão artística, via representação iconográfica, alguns aspectos que transitam entre a fantasia da casa própria idealizada, a construção do interior de uma casa de classe média e a realidade abrupta daqueles que constroem moradias improvisadas em locais irregulares.

Vendidas como sonho de consumo pela publicidade, as imagens dos projetos de futuros prédios e condomínios geradas por computação gráfica, que almejam ter a chancela de veracidade atribuída aos registros fotográficos como estratégia de seduzir o consumidor, ganham uma leitura irônica e contundente na instalação do artista plástico Bruno Faria. A partir de recortes de campanhas publicitárias impressas distribuídas pela cidade, Faria constrói com refinada ironia uma cidade improvável, permeada de promessas de felicidade e do desejo de ascensão social.

Em oposição a essa casa idealizada para o consumo temos as casas construídas com os escombros da sociedade de consumo, com aquilo que perdeu sua função vital e que agora serve de material para erguer uma espécie de arquitetura do caos, da sobrevivência, em que a criatividade gerada pela necessidade é a principal argamassa. Essa realidade hostil, vivida por uma grande parcela da sociedade, se materializa em locais como a Comunidade da Paz, instalada num espaço totalmente insalubre, porém, de grande visibilidade, num claro gesto político a clamar por soluções do poder público.

Desafiados pelo curador, os fotodocumentaristas da Cia de Foto buscaram novas formas de representar e expor esse universo, tão banalizado pelo excesso de imagens e clichês na mídia que inevitavelmente findam por reforçar os estigmas a que eles estão condenados.

Entre esses dois pólos irreconciliáveis, está a classe média que surge representada por obras construídas a partir de fotografias que ganham volumes ao serem trabalhadas num surpreendente e lúdico diálogo com a marcenaria, do artista Marcelo Zocchio. O registro fotográfico, que torna o mundo bidimensional, é traído por essa operação do artista ao ganhar aspectos tridimensionais, criando um poético paradoxo entre objeto e representação.

Numa sala eqüidistante entre os dois outros mundos, sugerindo uma certa medida de equilíbrio, os objetos e móveis do interior da casa de Zocchio sugerem um mapeamento particular e errático da vida de seus habitantes. A casa, enfim, como potência humanista, como espaço de acumulação de histórias, de vidas e narrativas que se prolongam para além dos objetos da própria construção que a encerra.

Eder Chiodetto

 

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