André Cypriano – Texto do curador

Rocks of Imagination

Mostra individual de André Cypriano
Paralelo Galeria – 12/08 a 29/09 de 2015
São Paulo

Curadoria: Eder Chiodetto
Produção: Paralelo Galeria

As pedras encontradas na natureza trazem segredadas em sua matéria os mistérios da formação do universo. Incontáveis processos geológicos ocorridos num tempo tão longo que mal podemos precisar, esculpiu nessas pedras a forma, a cor, a textura e a solidez. Quando na superfície, expostas às intempéries, essas pedras seguem se redesenhando paulatinamente.

Em 1999, André Cypriano decidiu fotografar os 193 km de extensão ao redor da Ilha Grande, no sul do Rio de Janeiro, com o intuito de registrar a natureza física do local na virada do século. Encantou-se com a magnitude das costas rochosas da ilha. Chamou-lhe atenção, especialmente, uma rocha com formato de dragão que “avançava sobre o horizonte como se estivesse enfrentando o poder do mar e seus invasores”, diz Cypriano. Tratava-se da Pedra do Drago, como os ilhéus passaram a denominá-la.

No mesmo dia, numa dessas artimanhas do destino, o fotógrafo encontrou a Pedra do Feto num local de águas mansas. Desde então, assim como crianças que, quando estimuladas, passam a enxergar desenhos lógicos nas nuvens, Cypriano passou a libertar formas até então enclausuradas na aparência das pedras. Exercício esse que só é possível a partir de um determinado estado de relaxamento mental e visual, segundo o artista. Cypriano tem se aventurado por essa imaginativa empreitada nos últimos 15 anos, que culminam nesse enfático portfólio de 40 fotografias, mostrado parcialmente agora, pela primeira vez, na galeria Paralelo, em São Paulo.

Exercício de imaginação de potência semelhante foi realizado entre 1925 e 1934 por Alfred Stieglitz, que fotografou compulsivamente os desenhos formados por nuvens, gerando a série Equivalents. Curiosamente essa é considerada, na história da fotografia, a primeira série de caráter abstrata. O termo abstração, imaginamos, deve-se muito menos ao referente: nuvens que identificamos imediatamente ao vermos as fotografias, e mais à capacidade desses vestígios de água em suspensão de excitar nossa imaginação a ponto de criarmos paralelos com elementos existentes
no nosso entorno.

Cypriano encontra suas equivalências nos formatos e nas fissuras de pedras encontradas na Ilha Grande (RJ), onde o fotógrafo reside há 15 anos. Eis que o imponderável surge com toda a sua surpreeendente e enigmática força. Numa combinação aleatória de formas que se desenham a partir de uma conjunção de fatores, as pedras ganham características claramente detectáveis de um feto, de um elefante, do Mickey Mouse, de um pênis, etc.

A estratégia, tanto de Stieglitz como de Cypriano, consiste em fotografar determinado referente não com a intenção de simplesmente registrá-lo, mas sim de ultrapassá-lo como símbolo, até transformar-se num outro. Esse preceito, que assimila estratégia utilizada por artistas surrealistas, traz em si a ideia de que tudo no universo formado por alguma massa, é criado a partir da junção de cadeias de átomos.

“A diferença entre o grafite e o diamante é apenas a disposição dos átomos de carbono nas suas estruturas”, afirma o físico brasileiro Adilson de Oliveira. Logo, tanto uma nuvem, uma pedra ou um corpo humano foram todos gerados a partir do mesmo impulso criador. Assim sendo, todos nós contemos codificado na estrutura de nossas células a possibilidade de uma nuvem, de uma pedra, de um diamante. Cada átomo é potência de criação de tudo o que pode vir a ser. Que uma pedra seja um dragão, não é uma equação tão absurda quanto possa parecer.

Rocks of Imagination também carrega consigo um processo de transmutação da fotografia de André Cypriano. Fotodocumentarista de primeira linha, as pesquisas de Cypriano até agora haviam se voltado de forma veemente às questões sociais, tendo muitas vezes o homem e os desdobramentos culturais, políticos e econômicos como centro de seus ensaios, sempre desenvolvidos de forma criteriosa e com uma clara postura ideológica. A poética das composições em preto-e-branco, uma marca forte do artista, agora assume um protagonismo conceitual em Rocks of Imagination. As fotografias tomadas de forma direta, ganham grandes escalas e cor.

Nesse novo ensaio, ainda que estejamos diante de uma documentação serial acerca dessas “pedras com formatos”, como nomeia o fotógrafo, o que nos chama a atenção é justamente aquilo que transpassa o registro e nos leva a intuir sobre os enigmas do universo metaforicamente representados pelas surpreendentes formas encontradas por Cypriano.

A fotografia documental experimenta aqui uma espécie de vertigem. Como documentar o intangível, o que não se explica? A fotografia, inventada no século XIX, no contexto da filosofia positivista, apostava na fotografia como instrumento que possibilitaria a comprovação da existência das coisas de forma empírica, científica, irrefutável.

Ao colecionar a ocorrência de fenômenos que não se explicam ou que falham ao serem testados pela ciência, a fotografia parece nos apresentar um paradoxo. Tratar de paradoxos, dos desvãos entre a ciência e o que teima em permanecer oculto, é um dos profícuos caminhos da arte pelo qual Cypriano envereda agora com perspicácia e grande desenvoltura poética. Os mistérios da existência, da pulsão da vida, ganham em Rocks of Imagination uma belíssima e imantada representação.

Eder Chiodetto

ENGLISH VERSION

Rocks found in nature bring segregated in their material the mysteries of universe formation. Uncountable geological processes that happened in such a long time that we can barely determine, craved in these rocks the form, color, texture and solidity. While on the surface, exposed to the elements, these rocks continue to gradually redesign themselves.

In 1999, André Cypriano decided to photograph the 193 km of shoreline around Ilha Grande, in southern Rio de Janeiro, aiming to record the local physical nature at the turn of the century. He became fascinated with the magnitude of the island’s rocky coast. One rock that has a dragon shape specially called his attention, it “moved towards the horizon as if it was facing the power of the sea and its invaders”, says Cypriano. It was the Dragon Rock, as the islanders call it.

In the same day, as if by destiny, the photographer found the Fetus Rock in a place of calm waters. Since then, just like children that, when stimulated, start to see logical drawings on clouds, Cypriano started to release forms till then hidden in the rocks’ appearance. This exercise is only possible from a certain mental and visual relaxing state, according to the artist. Cypriano has been venturing through this imaginative endeavor for the last 15 years, which are presented in this emphatic portfolio with 40 pictures, partially shown now, for the first time, in Paralelo gallery, in São Paulo.

Imagination exercise of similar power has been carried out between 1925 and 1934 by Alfred Stieglitz, who compulsively photographed the drawings formed by clouds, creating the Equivalents series. Curiously, this is considered, in the history of photography, the first abstract series in character. The abstraction term, we think, is much less due to the referent: clouds we immediately identify when we see the pictures, and more to the ability of these trace amounts of water in suspension, to excite our imagination to such a point we create parallels with elements around us.

Cypriano finds his equivalent in the forms and cracks of the rocks found in Ilha Grande (RJ), where the photographer has a residence for 15 years. Then, the imponderable arises with its whole amazing and enigmatic force. In a random combination of forms that are drawn from a set of factors, the rocks gain characteristics clearly distinguishable of a fetus, of an elephant, of Mickey Mouse, of a penis, etc.

The strategy both from Stieglitz and Cypriano, consists in photographing a certain referent not aiming only to register it, but to exceed it as a symbol until it becomes something different. This precept, that assimilates the strategy used by surrealist artists, brings the idea that everything in the universe is made of some mass, created from the junction of atom chains.

“The difference between graphite and diamond is only the carbon atoms disposition in its structure”, states the Brazilian physicist Adilson de Oliveira. Therefore, whether it is a cloud, a rock or a human body they have all been generated from the same creative impulse. Thus, all of us have the possibility of a cloud, of a rock, of a diamond encoded in the structure of our cells. Each atom is a creation power of everything that could be. Let a rock be a dragon, it is not a so absurd equation as it seems to be.

Rocks of Imagination also has with it a transmutation process of André Cypriano photography. Cutting edge documentary photographer, to date, Cypriano’s researches have vehemently approached social issues, frequently having the man and the cultural, political and economic matters as the core of his essays, always carefully developed and with a clear ideological position. The poetry of the black and white compositions, a strong mark of the artist, now assumes a conceptual leading role in Rocks of Imagination. The pictures taken directly, achieve large scale and color.

In this new essay, even though we are in front of the serial documentation about these “rocks with forms”, as called by the photographer, what calls our attention is exactly that thing which exceeds the record and leads us to intuit about the enigmas of the universe metaphorically represented by the surprising forms found by Cypriano.

Documentary photography tries here a kind of vertigo. How do we document the intangible, which is not explained? Photography, invented in the 19th century, in the context of the positivistic philosophy, gambled in photography as an instrument that could prove the existence of things in an empiric, scientific, irrefutable manner.

When collecting the occurrence of phenomena that cannot be explained or that fail when tested by science, photography seems to show us a paradox. Treating paradox, through the gaps between science and that which insists in remaining hidden, is one of the productive paths via which Cypriano’s art traverses, now laden with insight and great poetic agility. The mysteries of existence, of life’s pulse, find in Rocks of Imagination a beautiful and magnetic representation.

Eder Chiodetto

 

Captura de Tela 2015-08-31 às 15.18.08

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