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Ana Carolina Fernandes – Mem de Sá 100 – Texto do Curador

Mem de Sá, 100

Mostra individual de Ana Carolina Fernandes
Galeria Fotospaço – 18/06 a 20/07 de 2013
Rio de Janeiro

Curadoria: Eder Chiodetto
Iluminação: Isabella Fernandes
Produção: Fotospaço

Meninos-mulheres, fêmeas hormonais superlativas. A soma dos dias pulsa em cores quentes, cítricas, gozos negociados. Sonhos de Cinderela com bíceps explosivos.

Mapear o desejo. Aferir alguma lógica em seus labirintos. Impossível. Território de dimensões não mensuráveis em solo movediço. O Outro, afinal, nos diz a fotógrafa-cronista, é um universo intrincado de significados enigmáticos, temperaturas de cor infinitas, texturas e luzes diversas. É preciso, portanto, algo mais do que olhos para decifrá-lo.

Ao olhar o Outro, o fotógrafo irremediavelmente o modifica: pode conforma-lo a sua capacidade, sempre restrita, de entender o universo alheio a partir de um olhar unidirecional, de suas crenças e pré-conceitos, ou pode potencializa-lo simbolicamente, chegar ao seu âmago, a partir de um pacto, de uma relação em que os dois lados da câmera se permitam uma troca profunda de experiências, sem dogmas, sem receios.

Olho no olho não como estratégia, mas como devir humanista. A poética do encontro se efetiva, então, em minúcias segredadas e silêncios reveladores, num libertário estado de fruição rumo ao autoconhecimento.

“Mem de Sá, 100″, o ensaio fotográfico que Ana Carolina Fernandes desenvolveu nos últimos dois anos, convivendo com a comunidade de travestis do centro do Rio de Janeiro, é exemplo enfático de um trabalho original que se distancia em muito do olhar clichê e redutor que a sociedade em geral dedica a esse grupo social.

O segredo é um só: o convívio. Além, é claro, de uma grande sensibilidade aliada a capacidade de ver, ouvir, sentir, sem nunca acreditar que a sua forma de vida é o padrão pelo qual devemos criar parâmetros para julgar os outros. Despir-se do excesso de crenças e não julgar jamais. Esse é o dever de todo documentarista e, por extensão, deveria ser a forma básica de nos relacionarmos com qualquer pessoa.

Ao final do processo, temos então uma fotografia, uma visão de mundo e do Outro, orgânica, pulsante, íntegra. “Mem de Sá, 100″, se alia, assim, a partir de seus preceitos, do envolvimento entre fotógrafa e seus retratados e da amalgama minuciosamente construída entre forma e conteúdo, com o que de melhor tem sido produzido no fotodocumentarismo contemporâneo.

Fotodocumentarismo que rompe barreiras e transita livremente entre páginas de revistas e paredes de galerias. Sim, a fotografia também já não tolera mais esses lugares estanques e certas demarcações artificialmente criadas, tema de fundo que “Mem de Sá, 100″ trata com grande desenvoltura ao dar imagem e voz a esses meninos-mulheres.

Eder Chiodetto

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